
Durante décadas, a principal pergunta sobre uma missão tripulada a Marte foi se a tecnologia seria capaz de levar seres humanos até lá.
Mas um novo estudo sugere que o maior desafio talvez não esteja nos foguetes ou nas espaçonaves, e sim no próprio corpo humano.
Segundo os pesquisadores, os efeitos combinados da microgravidade, radiação espacial, isolamento extremo e limitações médicas podem representar obstáculos muito maiores do que normalmente se imagina.
A comparação entre diferentes programas espaciais ajuda a entender essa dificuldade.
A Estação Espacial Internacional orbita a apenas 400 quilômetros da Terra e permanece protegida em grande parte pelo campo magnético do planeta.
Em caso de emergência, astronautas podem retornar rapidamente para casa e contam com comunicação praticamente instantânea com equipes médicas e centros de controle.
Já uma missão à Lua é muito mais complexa.
A distância é cerca de mil vezes maior do que a da Estação Espacial Internacional e qualquer emergência exige dias para uma eventual evacuação.
Mesmo assim, as missões lunares duram apenas algumas semanas.
Marte representa um salto muito maior.
Uma viagem completa pode durar cerca de três anos, sem possibilidade de retorno rápido e com atrasos de comunicação que podem chegar a 20 minutos em cada direção.
Nessas condições, a tripulação precisaria resolver praticamente todos os problemas sozinha.
Os cientistas já conhecem diversos efeitos que o ambiente espacial provoca no organismo.
Na ausência de gravidade, ossos perdem densidade, músculos enfraquecem e o sistema cardiovascular passa por mudanças importantes.
Astronautas da Estação Espacial Internacional dedicam aproximadamente duas horas diárias a exercícios físicos para reduzir esses efeitos.
Mesmo assim, ainda não se sabe se a gravidade marciana, equivalente a apenas 38% da gravidade terrestre, seria suficiente para evitar problemas semelhantes após meses ou anos no planeta.
O sistema imunológico também sofre alterações durante missões espaciais.
Pesquisas mostram que vírus que permanecem adormecidos no organismo podem voltar à atividade em situações de estresse prolongado.
Embora isso ainda não tenha provocado casos graves no espaço, os cientistas alertam que missões muito mais longas podem apresentar riscos diferentes.
Outro problema envolve a visão.
Em alguns astronautas, a redistribuição de fluidos corporais em microgravidade provoca aumento da pressão dentro da cabeça, afetando a estrutura dos olhos.
Em certos casos, alterações visuais persistiram por longos períodos após o retorno à Terra.
Os pesquisadores também destacam desafios psicológicos.
Mesmo astronautas altamente treinados podem enfrentar períodos de desmotivação, conflitos interpessoais e dificuldades cognitivas durante longos períodos de isolamento.
Alguns tripulantes descrevem uma condição informalmente chamada de “estupidez espacial”, caracterizada por dificuldade de concentração e redução do desempenho em tarefas complexas.
Além dos problemas conhecidos, existem riscos que simplesmente não podem ser previstos.
Um exemplo ocorreu recentemente quando um astronauta desenvolveu um coágulo sanguíneo na veia jugular durante uma missão na Estação Espacial Internacional.
O problema foi resolvido graças ao apoio médico na Terra e ao envio de medicamentos para a estação.
Em uma missão a Marte, esse tipo de assistência não seria possível.
Por isso, os pesquisadores defendem que futuras missões precisarão ser capazes de lidar não apenas com situações previstas, mas também com emergências totalmente inesperadas.
Ferramentas de inteligência artificial poderão desempenhar um papel importante nesse cenário, ajudando a detectar problemas médicos ou falhas técnicas antes que se tornem críticas.
Segundo os autores, a exploração humana de Marte exigirá muito mais do que avanços em propulsão espacial.
Será necessário compreender profundamente como sistemas biológicos, psicológicos e tecnológicos interagem durante anos em um ambiente extremo.
Mais do que uma jornada para outro planeta, uma missão a Marte poderá se tornar o maior teste já realizado sobre os limites da adaptação humana fora da Terra.
Sobre a Imagem: Um mosaico do hemisfério de Valles Marineris em Marte, projetado em perspectiva linear, uma visão semelhante à obtida a partir de uma espaçonave. A distância é de 2.500 quilômetros da superfície marciana, com uma escala de 0,6 km/pixel. O mosaico é composto por 102 imagens de Marte capturadas pela sonda Viking. O centro da imagem (latitude -8, longitude 78) mostra todo o sistema de cânions de Valles Marineris, com mais de 2.000 quilômetros de extensão e até oito quilômetros de profundidade, estendendo-se da região de Noctis Labyrinthus, o sistema de fendas tectônicas em forma de arco a oeste, até o terreno caótico a leste. Muitos canais fluviais gigantes e antigos nascem no terreno caótico e nos cânions da região centro-norte e fluem para o norte. A oeste, os três vulcões de Tharsis (as manchas vermelho-escuras) são visíveis, cada um com cerca de 25 quilômetros de altura. Ao sul de Valles Marineris encontra-se um terreno muito antigo coberto por inúmeras crateras de impacto. Créditos da Imagem: PANELA.
Fonte: https://www.planetary.org/articles/are-we-ready-to-send-humans-to-mars

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