Um estudo publicado no Journal of Geophysical Research: Planets acaba de lançar nova luz sobre uma questão crucial para a ciência planetária: qual é o alcance do vulcanismo explosivo em Vênus e o que isso nos diz sobre sua evolução climática? A pesquisa, conduzida por uma equipe internacional de geocientistas, sugere que plumas eruptivas venusianas podem atingir altitudes surpreendentes, chegando a até 45 quilômetros em condições extremas.

A investigação não é apenas uma curiosidade sobre o planeta vizinho. Entender se e como Vênus produz erupções explosivas pode ajudar a decifrar sua transformação em um mundo infernal dominado por um efeito estufa descontrolado, e até fornecer pistas sobre o futuro climático da Terra.


Modelando erupções em um planeta extremo

Para estimar a altura das plumas, os pesquisadores recorreram ao FPLUME, um programa de modelagem desenvolvido originalmente em 2016 para prever a altura de plumas vulcânicas na Terra. Adaptar o modelo a Vênus exigiu uma verdadeira reconstrução de parâmetros:

  • Gravidade diferente (90–91% da terrestre)
  • Atmosfera 90–92 vezes mais densa
  • Temperatura superficial por volta de 465°C
  • Composição dominada por dióxido de carbono, aumentando a viscosidade atmosférica

Com essas condições recalculadas, o programa analisou o comportamento de plumas sob diversos cenários, incluindo variações no cisalhamento do vento, conteúdo particulado e dispersão vertical.

O resultado surpreendeu até os próprios pesquisadores: a maioria das plumas poderia alcançar 15 km acima da cratera, mas, sob condições particularmente energéticas, erupções explosivas poderiam chegar a 45 km de altitude, atingindo a base das nuvens de Vênus.

O estudo conclui que as erupções explosivas em Vênus podem desempenhar um papel significativo em seus processos atmosféricos.

“A injeção vulcânica na atmosfera potencialmente desempenha um papel nos processos climáticos em Vênus”, afirma o artigo.

Isso ocorre porque partículas e gases emitidos por erupções de grande alcance podem:

  • alterar a química atmosférica,
  • influenciar a dinâmica das nuvens,
  • afetar a radiação solar que chega à superfície.

Na Terra, plumas vulcânicas podem resfriar o clima temporariamente. Em Vênus, com sua atmosfera densa e ácida, os efeitos são muito menos compreendidos, e potencialmente muito mais extremos.

Vênus é considerado o “laboratório natural” para entender o que acontece quando um planeta passa por um efeito estufa descontrolado. Os cientistas acreditam que, no passado distante, o planeta pode ter sido relativamente ameno, até que mudanças climáticas irreversíveis transformaram sua atmosfera.

Saber quando e como seu vulcanismo ocorreu ajuda a esclarecer:

  • quando Vênus perdeu sua água,
  • como sua atmosfera ficou tão espessa,
  • por quanto tempo condições habitáveis foram possíveis.

Esses dados também são fundamentais para estudos sobre exo-Vênus, exoplanetas semelhantes a Vênus que orbitam outras estrelas, como Gliese 12 b, localizado a 40 anos-luz e considerado um candidato a mundo temperado.

O estudo chega em um momento crucial, já que a NASA se prepara para lançar duas grandes missões a Vênus na década de 2030:

DAVINCI

  • Descerá pela atmosfera de Vênus,
  • Medirá composição química,
  • Fará as primeiras imagens em alta resolução da superfície.

VERITAS

  • Realizará um novo mapeamento global por radar,
  • Atualizará o retrato geológico de Vênus pela primeira vez desde a missão Magellan (anos 1980),
  • Permitirá comparar mudanças de longo prazo, incluindo possíveis erupções.

Por enquanto, os cientistas dependem das antigas imagens da Magellan, mas a VERITAS promete revolucionar o estudo de vulcanismo ativo no planeta.

O novo estudo reforça que Vênus ainda tem muito a revelar. Suas plumas explosivas (e sua capacidade de atingir níveis próximos às nuvens) podem ser a chave para compreender sua história climática e, por extensão, a evolução de planetas rochosos em todo o cosmos.

E, à medida que buscamos vida em outros mundos, entender como planetas semelhantes à Terra podem “dar errado” pode ser tão importante quanto encontrar aqueles que deram certo.


Sobre a Imagem: Imagem de radar de Vênus obtida pela sonda Magellan da NASA em 1991. Crédito: NASA/JPL.

Link do Estudo: https://agupubs.onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1029/2025JE009320


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