
As grandes galáxias crescem devorando as pequenas, e o novo capítulo dessa história cósmica vem de Andrômeda. Enquanto a Via Láctea continua arrancando gás das Nuvens de Magalhães, deixando para trás a imensa Corrente Magalhânica de 600 mil anos-luz, cientistas agora estão olhando para a nossa vizinha mais próxima para entender como esse processo se desenrola em detalhes. Uma nova pesquisa revela que Andrômeda está extinguindo suas galáxias satélites de forma ainda mais drástica e variada do que se imaginava.
O estudo, liderado por Alex Merrow, da Universidade de Durham, usa dados de observações profundas e simulações cosmológicas de ponta para mapear a vida e a morte de 39 galáxias anãs ao redor de Andrômeda (M31). O objetivo é decifrar quando essas galáxias caíram na órbita da gigante espiral, quando passaram mais perto de seu centro e, sobretudo, quando e por que deixaram de formar estrelas. O trabalho, submetido ao Monthly Notices of the Royal Astronomical Society e publicado no arXiv, explora o mecanismo mais crucial da canibalização galáctica: a extinção.
A missão Gaia, da ESA, revolucionou o estudo desse fenômeno ao medir com precisão inédita o movimento próprio de mais de um bilhão de estrelas na Via Láctea. Combinado à capacidade de resolução de estrelas individuais em galáxias distantes, o método permite reconstruir trajetórias orbitais de sistemas inteiros e identificar populações estelares que nasceram juntas, mesmo após bilhões de anos de separação gravitacional. É a arqueologia das galáxias em sua forma mais sofisticada.
Segundo os autores, esse conjunto de técnicas transforma o Grupo Local (o conjunto de galáxias que inclui a Via Láctea, Andrômeda e dezenas de satélites) num verdadeiro laboratório para testar modelos de evolução galáctica. Trabalhos anteriores já haviam mostrado que galáxias anãs que orbitam a Via Láctea tendem a perder seu gás rapidamente, sufocando qualquer nova formação estelar. A questão agora era compreender como esse processo ocorre ao redor de Andrômeda, cuja massa e história de fusões diferem das nossas.
Os resultados mostram que apenas as galáxias satélites mais massivas conseguem continuar formando estrelas por mais de 3 bilhões de anos após sua aproximação máxima (pericentro) de Andrômeda. Esse é o ponto em que sofrem a influência gravitacional mais intensa da galáxia hospedeira. O estudo indica que formas de extinção como pressão de impacto, remoção de gás por forças de maré e interrupção da acreção de gás agem de forma eficiente sobre galáxias com menos de 30 milhões de massas solares, retirando sua capacidade de criar novas estrelas.
Mas o aspecto mais surpreendente do trabalho é que muitas galáxias anãs são extintas antes mesmo de se aproximarem significativamente de M31. Algumas das menos massivas pararam de formar estrelas até 10 bilhões de anos antes de o encontro mais próximo ocorrer. Nesse cenário, entram em jogo dois mecanismos: a reionização (quando a radiação ultravioleta do Universo primordial aqueceu o gás e o expulsou das pequenas galáxias) e o chamado “pré-processamento”. Nessa etapa anterior, a galáxia anã orbita uma galáxia intermediária, menor que Andrômeda, mas suficiente para remover seu gás e encaminhá-la já “apagada” para uma fusão posterior.
Ao comparar Andrômeda com a Via Láctea, os pesquisadores encontraram diferenças marcantes. As galáxias satélites da Via Láctea tendem a ter histórias antigas de infall e extinção: cerca de 76% delas deixaram de formar estrelas há mais de 11 bilhões de anos. Já as satélites de M31 apresentam uma distribuição mais ampla tanto nos tempos de chegada quanto nos de extinção, sugerindo que Andrômeda vem consumindo seus satélites de maneira mais prolongada e variada, ou que ainda não destruiu totalmente parte deles, ao contrário da Via Láctea.
Também é possível que diferenças observacionais contribuam para essa discrepância, já que observar satélites ao redor de M31, mais distante, é muito mais desafiador. Ainda assim, os autores afirmam que os dados são consistentes com um cenário onde a maior parte da extinção ocorre antes da aproximação orbital, e não durante ou após ela. Isso reforça o papel do pré-processamento e da influência do ambiente cósmico, filamentos da teia cósmica, halos menores e eventos da juventude do Universo.
Com cada vez mais dados de estrelas individuais, movimentos próprios precisos e simulações numéricas de última geração, os astrônomos estão começando a desvendar a receita completa de como grandes galáxias crescem ao longo de bilhões de anos. O que emerge é um retrato onde Andrômeda (e, muito provavelmente, a Via Láctea) não apenas atrai e assimila suas companheiras anãs, mas determina de forma implacável quando e como elas deixam de produzir luz.
No fim, a extinção das pequenas galáxias não é um acidente colateral, mas um ingrediente essencial do processo de fusão. E estudar essas mortes cósmicas nos ajuda a entender não apenas o passado da Via Láctea, mas também seu futuro, incluindo o encontro inevitável com Andrômeda daqui a cerca de 4 bilhões de anos.
Sobre a Imagem: A resplandecente Galáxia de Andrômeda (M31), como fotografada pelo Galaxy Evolution Explorer da NASA. A galáxia amarelada abaixo dela é sua galáxia satélite, M110, e a galáxia azul acima dela é M32. Andrômeda possui 39 galáxias anãs satélites conhecidas, e muitas delas são extintas muito antes de de fato caírem em Andrômeda. Crédito da imagem: NASA.
Fonte: https://www.universetoday.com/articles/the-andromeda-galaxy-quenches-its-satellite-galaxies-long-before-they-fall-in
Link do Estudo: https://arxiv.org/abs/2511.01977

Deixe uma resposta