Estudo recente sugere que caldeiras e fluxos de gelo de milhões de anos podem ser resultado de erupções “frias” em regiões específicas de Plutão.

Um novo estudo publicado no The Planetary Science Journal reacende o debate sobre a atividade geológica em Plutão. Pesquisadores da Universidade do Havaí e de instituições internacionais analisaram evidências que sugerem a existência de criovulcões (vulcões que expelem gelo e outros compostos voláteis em vez de magma) na superfície do planeta anão.

A descoberta, baseada em dados da sonda New Horizons, que sobrevoou Plutão em 2015, pode mudar a compreensão sobre a evolução térmica do corpo celeste mais distante do Sistema Solar e indicar que ele ainda pode estar ativo geologicamente, mesmo orbitando tão longe do Sol.

Os pesquisadores concentraram sua análise em uma formação chamada Caldeira Kildaze, localizada na região de Hayabusa Terra, no hemisfério sul de Plutão. Combinando imagens de alta resolução da sonda da NASA e modelos tridimensionais de elevação, a equipe identificou estruturas circulares e camadas de gelo que sugerem erupções sucessivas de “criolava”, uma mistura viscosa de água, amônia e outros compostos congelados.

Ao comparar essas feições com vulcões semelhantes em outras partes do Sistema Solar, os cientistas notaram semelhanças com regiões criovulcânicas já conhecidas em Ceres, Encélado, Tritão e Titã. Na Terra, formações análogas incluem as caldeiras de Yellowstone, Valles e Long Valley, enquanto em Marte, crateras colapsadas em Noctis Labyrinthus apresentam morfologias comparáveis.

Segundo o estudo, o gelo de água encontrado na Caldeira Kildaze tem apenas alguns milhões de anos, o que é considerado muito jovem em termos geológicos. Essa juventude indica que as erupções podem ter ocorrido relativamente “ontem” na escala de tempo do Sistema Solar.

“Considerando o tamanho, a estrutura, a composição e a juventude de Kildaze, propomos que a região seja um criovulcão ativo no passado recente, responsável por erupções que expeliram até mil quilômetros cúbicos de criolava”, descreve o artigo.

O fenômeno do criovulcanismo é conhecido desde os anos 1980, mas sua ocorrência em Plutão é especialmente intrigante. Em geral, esse tipo de atividade é impulsionado por calor interno, gerado por forças de maré gravitacional (como em Encélado e Europa) ou pelo decaimento radioativo de elementos no interior do corpo celeste.

Plutão, porém, está tão distante do Sol que o aquecimento solar é praticamente nulo. Isso levanta a questão: de onde vem o calor necessário para derreter e expelir o gelo subterrâneo?

Os cientistas acreditam que as interações gravitacionais entre Plutão e sua maior lua, Caronte, podem ser responsáveis. Estudos anteriores já sugeriram que o aquecimento de maré gerado pela tração mútua entre os dois corpos poderia manter o interior de Plutão aquecido o suficiente para permitir erupções periódicas de criolava. Outra possibilidade é o aquecimento radiogênico, provocado pelo decaimento de isótopos radioativos em seu núcleo rochoso.

Em ambos os casos, a evidência de gelo geologicamente jovem reforça a hipótese de que Plutão não é um mundo morto, mas sim um corpo dinâmico, capaz de atividade interna mesmo a quase 6 bilhões de quilômetros do Sol.

Desde a passagem da New Horizons, em julho de 2015, Plutão não recebeu mais visitas de sondas espaciais. No entanto, várias missões estão sendo propostas para um retorno ao planeta anão. Entre elas, um conceito que combina orbitador e módulo de pouso movido por reator de fusão, o que permitiria alcançar Plutão em apenas quatro anos, menos da metade do tempo que a New Horizons levou.

Essas futuras missões poderiam confirmar se a atividade criovulcânica ainda ocorre hoje e esclarecer de onde vem o calor interno que alimenta o “coração pulsante” do planeta anão.

Enquanto isso, os cientistas continuam analisando os dados coletados pela New Horizons e testando modelos que expliquem como mundos gelados como Plutão podem permanecer geologicamente ativos por bilhões de anos.



Sobre a Imagem: Essa é uma imagem de Plutão, capturada pela sonda New Horizons da NASA em 2015. Crédito: NASA/Laboratório de Física Aplicada da Universidade Johns Hopkins/Instituto de Pesquisa do Sudoeste/Alex Parker.

Link do Estudo: https://arxiv.org/abs/2310.10904


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