
Pesquisa japonesa identifica “cápsulas do tempo” de gelo marciano que guardam pistas sobre o passado úmido do planeta vermelho.
Durante décadas, cientistas vêm reunindo evidências de que Marte já foi um mundo quente, úmido e dinâmico, coberto por rios, lagos e até um vasto oceano no hemisfério norte. Canais fluviais, deltas e depósitos sedimentares são testemunhos desse passado aquático. Mas uma pergunta persiste: para onde foi toda essa água?
Uma nova pesquisa conduzida por uma equipe de cientistas japoneses pode oferecer a resposta. O estudo, publicado na revista Geology, revela que as crateras de Marte funcionam como registros naturais de eras glaciais e mostram que o planeta passou por múltiplos períodos de congelamento e degelo ao longo de centenas de milhões de anos.
Segundo os autores, as camadas de gelo preservadas em crateras marcianas indicam que o planeta perdeu água gradualmente, ciclo após ciclo, até se tornar o deserto frio e árido que conhecemos hoje.
Um registro congelado da história marciana
A pesquisa foi liderada por Trishit Ruj, professor associado do Instituto de Materiais Planetários da Universidade de Okayama, e contou com a colaboração de instituições como a Universidade de Kochi, a Universidade de Tóquio, a Universidade Brown e o Instituto de Ciências Espaciais e Astronáuticas da JAXA (ISAS).
Os pesquisadores analisaram imagens de alta resolução capturadas pela sonda Mars Reconnaissance Orbiter (MRO) da NASA, utilizando as câmeras CTX e HiRISE. O foco foi em crateras localizadas entre 20°N e 45°N de latitude, regiões que apresentam fortes sinais de atividade glacial, como cristas, depósitos de detritos e formações de fossos labirínticos.
A equipe observou que o gelo nessas crateras se acumula preferencialmente nas paredes sombreadas voltadas para o sudoeste, um padrão que se repetiu ao longo de diversas eras glaciais durante o período geológico conhecido como Amazônico, que se estende de cerca de 640 a 98 milhões de anos atrás.
“Marte passou por repetidas eras glaciais, mas a quantidade de gelo nas crateras diminuiu gradualmente ao longo do tempo”, explica Ruj. “Essas cápsulas do tempo geladas não apenas revelam como Marte perdeu água, mas também indicam locais onde futuros exploradores poderão acessar gelo preservado.”
Assim como na Terra, o clima de Marte é fortemente influenciado por mudanças na inclinação de seu eixo de rotação, a chamada obliquidade.
Enquanto a Terra tem uma inclinação relativamente estável de 23,4°, a de Marte pode variar drasticamente, chegando a alterar o equilíbrio entre suas calotas polares e o equador.
Essas oscilações provocam períodos alternados de glaciação e degelo, em que parte do gelo derrete, sublima ou migra para outras regiões do planeta.
Com o passar das eras, a quantidade total de gelo superficial foi diminuindo, o que indica uma perda contínua de água para o espaço.
“Marte serve como um laboratório natural para entender como o gelo se comporta em escalas de tempo vastas”, explica o coautor Hasegawa, da Universidade de Kochi. “Os insights que obtemos aqui também aprimoram nossa compreensão dos processos climáticos da Terra.”
As descobertas não têm implicações apenas científicas, mas também práticas.
Em futuras missões tripuladas a Marte, o acesso a gelo será essencial para a sobrevivência e autonomia dos astronautas. A água poderá ser convertida em oxigênio respirável, combustível para foguetes e até usada na agricultura marciana.
Identificar locais ricos em gelo preservado é, portanto, uma prioridade estratégica para as agências espaciais.
Além disso, a pesquisa contribui para estudos sobre mudanças climáticas na Terra, já que fenômenos semelhantes (como o encolhimento das geleiras e o degelo do permafrost) estão sendo observados no nosso planeta. As mesmas ferramentas de modelagem e sensoriamento remoto usadas para estudar Marte podem ajudar os cientistas a monitorar o gelo terrestre e prever seus impactos ambientais.
Sobre a Imagem:A missão Mars Express da Agência Espacial Europeia capturou esta imagem da cratera Korolev, coberta de gelo, perto do polo norte de Marte. Crédito: ESA/DLR/FU Berlin.
Link do Estudo: https://pubs.geoscienceworld.org/gsa/geology/article/doi/10.1130/G53418.1/660985/Long-term-and-multi-stage-ice-accumulation-in-the

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