
A NASA se prepara para lançar uma nova missão espacial que revelará, pela primeira vez em detalhes contínuos, o “halo invisível” que circunda nosso planeta. Trata-se da geocorona, uma tênue camada de luz ultravioleta emitida pela exosfera, a região mais externa da atmosfera terrestre, composta em grande parte por átomos de hidrogênio que escapam lentamente para o espaço. Essa missão inédita, chamada Observatório Carruthers Geocorona, deve partir do Centro Espacial Kennedy, na Flórida, não antes do dia 23 de setembro, a bordo de um foguete Falcon 9 da SpaceX.
O interesse científico pela exosfera remonta à década de 1970, quando o pioneiro George Carruthers desenvolveu uma câmera ultravioleta capaz de registrar a geocorona. O equipamento foi levado à Lua pelos astronautas da Apollo 16 em 1972 e produziu as primeiras imagens dessa camada atmosférica. Na época, os resultados surpreenderam os cientistas: mesmo a partir da Lua, o campo de visão da câmera não foi suficiente para captar toda a extensão da geocorona, revelando que a atmosfera terrestre se estendia muito mais longe do que se imaginava. Hoje, os modelos indicam que essa camada pode chegar a se estender até a metade da distância entre a Terra e a Lua.
A nova missão tem um objetivo fundamental: compreender como a exosfera reage às interações com o Sol e aos eventos de clima espacial, como as ejeções de massa coronal e as tempestades solares. A exosfera é a primeira barreira atingida por essas partículas energéticas, e sua resposta pode desencadear efeitos em cadeia capazes de ameaçar redes elétricas, satélites e futuras missões tripuladas no espaço profundo. Para os astronautas das missões Artemis, que viajarão até a Lua, e para futuras expedições a Marte, entender a dinâmica dessa região será essencial para a segurança.
Além da importância prática para a proteção tecnológica e humana, a missão também abordará uma questão científica de longo alcance: o processo de escape de hidrogênio da atmosfera. Esse elemento é um dos principais blocos de construção da água e sua perda ao longo do tempo está ligada à capacidade da Terra de reter oceanos enquanto outros planetas, como Marte, perderam a maior parte de sua água. Ao observar como o hidrogênio escapa pela exosfera, os cientistas poderão comparar a Terra a exoplanetas distantes e identificar quais mundos podem ter condições semelhantes para preservar água em suas superfícies.

Laboratório de imagens conceituais da NASA/Krystofer Kim
O Observatório Carruthers Geocorona foi projetado com duas câmeras ultravioleta de alta sensibilidade. Um sensor de campo próximo registrará variações locais da exosfera, enquanto um sensor de campo amplo capturará sua estrutura global e extensão total. A nave espacial viajará até o ponto de Lagrange L1, localizado a cerca de 1,6 milhão de quilômetros da Terra em direção ao Sol, de onde terá uma visão privilegiada e contínua dessa tênue camada atmosférica. Após quatro meses de cruzeiro e testes, espera-se que as operações científicas comecem em março de 2026, com duração prevista de dois anos.
Liderada por Lara Waldrop, da Universidade de Illinois em Urbana-Champaign, a missão homenageia o legado de George Carruthers e será conduzida em colaboração com instituições como a Universidade da Califórnia em Berkeley, a Universidade Estadual de Utah e a BAE Systems, responsável pela construção da espaçonave. O programa é gerenciado pelo Centro de Voos Espaciais Goddard da NASA, dentro da Divisão de Heliofísica da agência.
Mais do que apenas um avanço na compreensão da atmosfera terrestre, o Observatório Carruthers Geocorona deve fornecer pistas valiosas para a astrofísica moderna e para a busca por planetas habitáveis além do Sistema Solar. Ao estudar o único planeta conhecido a abrigar vida, a missão pode nos oferecer um guia para identificar outros mundos capazes de sustentar oceanos e, possivelmente, formas de vida em galáxias distantes.
Sobre a Imagem: A primeira imagem da luz UV da atmosfera externa da Terra, a geocorona, obtida por um telescópio projetado e construído por George Carruthers. O telescópio capturou a imagem enquanto estava na Lua durante a missão Apollo 16 em 1972.G. Crédito: Carruthers (NRL) et al./Câmera UV distante/NASA/Apollo 16.
Fonte: https://science.nasa.gov/uncategorized/new-nasa-mission-to-reveal-earths-invisible-halo/

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