
Durante os primórdios do Sistema Solar, colisões gigantes entre protoplanetas e asteroides massivos eram comuns. A Terra, por exemplo, provavelmente ganhou sua Lua após ser atingida por um corpo do tamanho de Marte, e Marte pode ter sido moldado por impactos que resultaram em sua superfície assimétrica. Mas, até agora, o passado violento de Vênus permanecia mais nebuloso. Um novo estudo, conduzido por M. Bussmann e colegas da Universidade de Zurique e publicado no servidor de pré-impressão arXiv, usou simulações computacionais avançadas para investigar o que teria acontecido se o planeta tivesse sido alvo de choques colossais logo após sua formação.
Os pesquisadores recorreram à técnica de hidrodinâmica de partículas suavizadas (SPH), ideal para simular colisões planetárias, já que permite rastrear com precisão o comportamento de diferentes materiais sob condições extremas. O modelo inicial de Vênus usado nas simulações representava um planeta já diferenciado: um núcleo de ferro compondo cerca de 30% da massa total e um manto de forsterita correspondendo aos 70% restantes.
A equipe então simulou impactos de corpos com massas variando entre 1% e 10% da massa da Terra (equivalentes a asteroides gigantes) a velocidades de 10 a 15 km/s. Foram testadas múltiplas geometrias de impacto, de colisões frontais a choques oblíquos, diferentes perfis térmicos iniciais e variados períodos de rotação pré-impacto.
Os resultados revelaram que múltiplos cenários de impacto poderiam explicar a atual rotação extremamente lenta e retrógrada de Vênus. Isso inclui tanto colisões frontais em um planeta inicialmente sem rotação quanto choques oblíquos envolvendo corpos do tamanho de Marte em um Vênus já em movimento.
O aspecto mais revelador, no entanto, foi que os impactos compatíveis com a rotação atual tendem a gerar pouco ou nenhum disco de detritos e, quando o formam, o material permanece dentro da órbita síncrona do planeta. Nesse caso, os fragmentos tenderiam a se reacumular em Vênus em vez de formar um satélite estável, explicando de forma convincente a ausência de uma lua venusiana.
Para os autores, a conclusão é clara: um impacto gigante no passado é compatível tanto com a rotação incomum quanto com a falta de satélite em Vênus, e pode ter sido determinante para sua evolução térmica posterior. Esse estado inicial teria influenciado o desenvolvimento de sua atmosfera espessa, o intenso efeito estufa e as características geológicas observadas hoje.
O estudo também abre caminho para novas investigações sobre a evolução de longo prazo do planeta. Com diversas missões a Vênus previstas para as próximas décadas, compreender seu passado catastrófico poderá ajudar cientistas a interpretar os dados geológicos e atmosféricos que serão obtidos. Assim, a história violenta de nosso “planeta irmão” começa a emergir, lançando luz sobre como ele se transformou no mundo infernal que conhecemos.
Sobre a Imagem: Vênus capturado pela sonda Messenger, essa atmosfera espessa esconde totalmente a superfície, tornando impossível observá-la nesse espectro. É um dos mundos mais inóspitos do Sistema Solar, com temperaturas que ultrapassam 460 °C e pressão atmosférica cerca de 90 vezes a da Terra. Crédito: NASA/Universidade Johns Hopkins.
Link do Estudo: https://arxiv.org/abs/2508.03239

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