Ceres, o maior objeto no cinturão principal de asteroides entre Marte e Júpiter, pode ter sido um mundo oceânico lamacento, de acordo com um novo estudo conduzido por cientistas da Universidade Purdue e da NASA. A pesquisa, publicada na revista Nature Astronomy em 18 de setembro de 2024, sugere que a crosta de Ceres é provavelmente composta por 90% de gelo, indicando a presença passada de um oceano de lama sob sua superfície.

A missão Dawn da NASA, que orbitou Ceres em 2016 a uma distância de apenas 375 quilômetros da superfície, forneceu dados cruciais para esta descoberta. Embora a superfície de Ceres seja marcada por crateras de impacto, semelhante a Mercúrio ou ao lado afastado da Lua, as observações da Dawn, combinadas com simulações de computador, revelaram que o planeta anão pode manter sua topografia craterada mesmo com uma crosta rica em gelo.

Mike Sori, da Universidade Purdue e um dos autores do estudo, explicou: “Acreditamos que há muito gelo de água perto da superfície de Ceres, e que ele fica gradualmente menos gelado à medida que você vai mais fundo. As pessoas costumavam pensar que, se Ceres fosse muito gelado, as crateras se deformariam rapidamente ao longo do tempo, como geleiras fluindo na Terra. No entanto, mostramos por meio de nossas simulações que o gelo pode ser muito mais forte em condições em Ceres do que o previsto anteriormente se você misturar apenas um pouco de rocha sólida.”

A equipe concluiu que Ceres pode ter tido um oceano lamacento no passado, que ao congelar, formou uma crosta gelada com material rochoso incorporado. “Nossa interpretação de tudo isso é que Ceres costumava ser um ‘mundo oceânico’ como Europa (um dos satélites naturais de Júpiter), mas com um oceano sujo e lamacento. À medida que esse oceano lamacento congelava ao longo do tempo, ele criava uma crosta gelada com um pouco de material rochoso preso nela”, acrescentou Sori.

Os pesquisadores executaram simulações de como a crosta de Ceres evoluiu ao longo de bilhões de anos. Ian Pamerleau, também da Universidade Purdue e coautor do estudo, explicou: “Usamos várias observações feitas com dados da Dawn como motivação para encontrar uma crosta rica em gelo que resistisse ao relaxamento de crateras em Ceres. Diferentes características de superfície sugerem que a subsuperfície próxima de Ceres contém muito gelo. Dados espectrográficos também mostram que deve haver gelo abaixo do regolito no planeta anão.”

As simulações mostraram que o gelo pode fluir muito lentamente ao longo do tempo, mesmo quando misturado com pequenas quantidades de rocha sólida, permitindo que uma crosta rica em gelo mantenha sua topografia craterada por bilhões de anos.

A possibilidade de Ceres ser um mundo oceânico congelado próximo à Terra tem implicações significativas para futuras missões espaciais. “Ceres pode ser um ponto de comparação valioso para as luas geladas que hospedam oceanos no Sistema Solar externo, como a lua Europa de Júpiter e a lua Encélado de Saturno. Ceres, pensamos, é, portanto, o mundo gelado mais acessível do universo. Isso o torna um ótimo alvo para futuras missões de naves espaciais”, destacou Sori.

Além disso, algumas das características brilhantes observadas na superfície de Ceres podem ser os restos do oceano lamacento que irrompeu na superfície e congelou. Isso oferece uma oportunidade única de coletar amostras diretas do oceano de um antigo mundo oceânico sem a necessidade de viajar para as regiões mais distantes do Sistema Solar.

Ceres foi o primeiro asteroide descoberto e é o maior objeto conhecido no cinturão de asteroides. Devido à sua massa e forma esférica, é classificado como um planeta anão. Compreender a estrutura interna de Ceres e sua história geológica pode fornecer insights valiosos sobre a formação e evolução de corpos celestes no Sistema Solar.

Este estudo representa um avanço significativo na compreensão de Ceres e ressalta a importância de missões como a Dawn. A colaboração entre cientistas e o uso de tecnologias avançadas continuam a expandir nosso conhecimento sobre os mundos que nos cercam, abrindo caminho para futuras explorações e descobertas.

Sobre a imagem: Uma vista do planeta anão Ceres em cores falsas. Esta imagem torna fácil ver os pontos brilhantes na superfície de Ceres. Esses pontos podem ser os restos de um oceano de Ceres que entrou em erupção na superfície do pequeno mundo. Créditos da imagem: NASA / JPL-Caltech/ UCLA/ MPS/ DLR/ IDA.

Fontes: https://www.nature.com/articles/s41550-024-02350-4?_ga=2.212160788.1676583578.1727873977-1812939723.1727873976

https://earthsky.org/space/dwarf-planet-ceres-muddy-ocean-world/


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