Planeta de aparência vulcânica, com tons de vermelho e laranja, contra um fundo escuro salpicado de estrelas.

A Terra primitiva pode ter sido um lugar muito mais extremo do que os cientistas imaginavam.

Um novo estudo sugere que nosso planeta pode ter permanecido coberto por vastos oceanos de magma durante mais de 500 milhões de anos após sua formação, um período muito maior do que as estimativas tradicionais.

A pesquisa foi conduzida por cientistas do Instituto Astronômico Kapteyn e está disponível em pré-publicação no arXiv.

Há cerca de 4,5 bilhões de anos, a Terra era muito diferente do mundo que conhecemos hoje.

A superfície era dominada por rochas fundidas, a atmosfera era extremamente densa e rica em gases considerados tóxicos pelos padrões atuais, e a Lua orbitava muito mais próxima do planeta do que atualmente.

Segundo os pesquisadores, dois fatores podem ter trabalhado juntos para impedir que a Terra esfriasse rapidamente: o aquecimento provocado pelas forças gravitacionais da Lua recém-formada e o intenso efeito estufa gerado pela atmosfera primitiva.

Hoje, a influência gravitacional da Lua é percebida principalmente nas marés dos oceanos.

No entanto, quando ela estava muito mais próxima da Terra, suas forças de maré eram muito mais intensas.

Essas forças deformavam o interior do planeta de forma contínua, gerando calor adicional por atrito e ajudando a manter o manto e a superfície em estado fundido.

Ao mesmo tempo, os gases liberados pelos oceanos de magma formavam uma atmosfera espessa capaz de reter grande parte do calor que tentava escapar para o espaço.

Para investigar esse cenário, os pesquisadores utilizaram um modelo de evolução planetária conhecido como PROTEUS.

As simulações mostraram que a Terra poderia ter entrado em períodos de equilíbrio térmico, nos quais a quantidade de calor perdida para o espaço era praticamente compensada pelo calor gerado pelas forças de maré lunares.

Nessas fases, o resfriamento do planeta praticamente parava.

Dependendo das condições químicas do interior terrestre, esses períodos de estagnação poderiam durar desde alguns milhões até centenas de milhões de anos.

Os resultados indicam que, em alguns cenários, a fase de oceano de magma poderia ter persistido por mais de meio bilhão de anos.

Um dos fatores mais importantes identificados pelo estudo foi a chamada fugacidade de oxigênio, uma propriedade química que influencia a forma como elementos e gases são liberados pelo interior do planeta.

Se o manto terrestre fosse mais oxidante, grandes quantidades de vapor d’água seriam liberadas apenas nos estágios finais do resfriamento.

Isso criaria uma atmosfera extremamente eficiente em reter calor, prolongando ainda mais a existência dos oceanos de magma.

Já em cenários mais redutores, dominados por hidrogênio e metano, os gases seriam liberados mais cedo, reduzindo o efeito estufa e permitindo um resfriamento relativamente mais rápido.

Além de alterar nossa compreensão da Terra primitiva, o estudo também apresenta uma possibilidade intrigante relacionada à origem da vida.

Os pesquisadores sugerem que as condições químicas criadas durante essa longa fase de magma podem ter favorecido a produção de compostos considerados importantes para a química prebiótica.

Entre eles está o cianeto de hidrogênio, uma molécula que, apesar de ser altamente tóxica para a maioria das formas de vida atuais, é considerada por muitos cientistas uma das substâncias fundamentais para a formação de moléculas biológicas complexas, incluindo componentes do RNA e proteínas.

Se essa hipótese estiver correta, a própria fase infernal da Terra primitiva pode ter ajudado a criar as condições químicas que mais tarde permitiriam o surgimento da vida.

Os resultados também podem ajudar os cientistas a compreender melhor quais condições procurar em exoplanetas jovens e em outros mundos potencialmente habitáveis espalhados pela galáxia.



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