Esquema do telescópio MUST, mostrando os componentes como espelhos, plano focal e eixos de azimute e elevação, com fundo de estrelas.

A astronomia está prestes a enfrentar um novo desafio. Nos próximos anos, observatórios como o Euclid e o Vera Rubin irão registrar imagens de dezenas de bilhões de galáxias, produzindo o maior retrato já feito do Universo.

Mas fotografar galáxias é apenas o primeiro passo.

Para compreender realmente esses objetos, os astrônomos precisam medir características como distância, velocidade e composição química. Essas informações são obtidas por meio da espectroscopia, uma técnica que analisa a luz emitida por cada galáxia individualmente.

O problema é que esse processo é lento.

Atualmente, um dos instrumentos mais eficientes do mundo para esse trabalho é o DESI (Dark Energy Spectroscopic Instrument), instalado no Arizona, nos Estados Unidos. Ele consegue observar simultaneamente cerca de 5.000 objetos celestes e já produziu o maior mapa tridimensional do Universo já construído.

Agora, cientistas chineses querem dar um salto ainda maior.

O novo projeto, chamado MUST (MUltiplexed Survey Telescope), está sendo desenvolvido pela Universidade de Tsinghua e será instalado a 4.380 metros de altitude na província de Qinghai, na China.

O telescópio foi projetado especificamente para realizar levantamentos espectroscópicos em larga escala e promete ser cerca de dez vezes mais eficiente do que os instrumentos atuais.

Seu diferencial está em um sistema composto por mais de 20 mil fibras ópticas robóticas.

Cada uma delas poderá ser apontada de forma independente para uma galáxia diferente em apenas alguns segundos, permitindo que milhares de objetos sejam observados simultaneamente.

Isso representa aproximadamente quatro vezes mais fibras do que o DESI utiliza atualmente.

Além disso, o campo de visão do telescópio será enorme, cobrindo em uma única observação uma área do céu equivalente a cerca de vinte vezes o tamanho aparente da Lua cheia.

Ao longo de uma campanha científica prevista para durar oito anos, com início esperado para o começo da década de 2030, os pesquisadores pretendem medir o desvio para o vermelho de mais de 100 milhões de galáxias e quasares.

Esses dados permitirão construir o mapa tridimensional mais detalhado da estrutura cósmica já produzido.

O objetivo não é apenas cartografar o Universo.

Os cientistas esperam utilizar essas observações para investigar questões fundamentais da física moderna, incluindo a natureza da energia escura, a massa dos neutrinos, a validade da relatividade geral em escalas cosmológicas e a formação das primeiras galáxias durante o primeiro bilhão de anos após o Big Bang.

O próprio telescópio também chama atenção pela complexidade de sua engenharia.

Seu espelho primário terá 6,5 metros de diâmetro e trabalhará em conjunto com um sistema óptico de campo amplo composto por cinco lentes. Entre elas estará a maior lente asférica já fabricada para um telescópio desse tipo.

Quando entrar em operação na próxima década, o MUST poderá inaugurar uma nova era na cosmologia observacional, permitindo que os astrônomos deixem de apenas registrar imagens do cosmos e passem a estudar sua estrutura em uma escala sem precedentes.



Sobre a Imagem: Ilustração do Telescópio de Pesquisa MULtispectral. Crédito da Imagem: Yifan Zhang, Haijiao Jiang, Stephen Shectman, Dehua Yang e Zheng Cai.

Fonte: https://arxiv.org/abs/2605.10102


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