Leva apenas um instante para que os olhos se adaptem à escuridão absoluta. Primeiro, uma estrela tímida surge no céu. Depois outra. Em seguida, constelações inteiras parecem acender-se como se o universo estivesse sendo revelado camada por camada. No Deserto do Atacama, no Chile, essa experiência não é exceção, é rotina.

Considerado o lugar mais seco da Terra, o Atacama abriga também alguns dos céus mais escuros do planeta. A combinação rara de altitude elevada, clima extremamente árido e isolamento de centros urbanos transforma a região em um dos principais polos da astronomia mundial, onde se concentram alguns dos maiores telescópios já construídos.

“As condições no Deserto do Atacama são únicas no mundo”, explica Chiara Mazzucchelli, presidente da Sociedade Astronômica Chilena. “Temos mais de 300 noites claras por ano.”

Mas esse privilégio científico pode estar sob ameaça.

Nos últimos anos, o deserto tornou-se o centro de uma disputa crescente entre ciência e desenvolvimento. Um projeto de energia verde planejado a poucos quilômetros do Observatório Paranal (operado pelo Observatório Europeu do Sul (ESO)) levantou preocupações globais sobre o futuro da observação astronômica.

A Via Láctea se estende pelo céu noturno, vista do Deserto do Atacama, Chile, na quarta-feira, 15 de abril de 2026. Crédito: AP Photo/Esteban Felix

Embora o projeto tenha sido cancelado em janeiro após forte pressão da comunidade científica, o episódio expôs fragilidades nas leis de proteção do céu noturno no Chile.

“Estamos trabalhando para garantir que novos critérios sejam rígidos o suficiente para não impactar áreas astronômicas”, afirma Daniela González, da Fundação Cielos de Chile.

Localizado no chamado “Vale dos Fótons”, o Observatório de Paranal é um dos principais centros astronômicos do mundo. Ali, telescópios operam lado a lado em condições quase perfeitas de observação, longe de qualquer interferência luminosa significativa.

“Os telescópios do ESO estão entre os mais poderosos do planeta”, afirma Itziar de Gregorio-Monsalvo, representante da organização no Chile.

O local abriga projetos que investigam desde galáxias distantes até exoplanetas potencialmente habitáveis. Para os cientistas, cada noite de observação é uma oportunidade rara de olhar para o passado do universo.

Entre os projetos mais ambiciosos está o Extremely Large Telescope (ELT), previsto para entrar em operação na próxima década. Com um espelho de quase mil metros quadrados de área coletora de luz, o telescópio será 20 vezes mais potente que os instrumentos atuais e poderá fornecer imagens 15 vezes mais nítidas que o Telescópio Espacial Hubble.

Segundo o astrônomo Lucas Bordone, o ELT pode ser decisivo na busca por vida fora da Terra.

“Poderemos observar planetas semelhantes à Terra na zona habitável de suas estrelas”, explica.

Apesar de sua importância científica, o Atacama está mudando. A expansão urbana, a mineração e projetos de infraestrutura estão avançando sobre regiões antes intocadas.

“O deserto era um oceano de escuridão. Agora isso mudou”, lembra Eduardo Unda-Sanzana, do Centro de Astronomia da Universidade de Antofagasta.

Em Paranal, os pesquisadores vivem em condições extremas para preservar a sensibilidade dos instrumentos. A luz artificial precisa ser quase inexistente, e até mesmo pequenas vibrações podem comprometer observações astronômicas.

O episódio do projeto de energia cancelado recentemente reforçou um alerta: sem regulamentação atualizada, a preservação dos céus escuros pode não estar garantida no futuro.

Os riscos vão além da poluição luminosa. Vibrações, poeira e turbulência atmosférica podem comprometer completamente observações de alta precisão.

“Se você colocar um telescópio de ponta perto de uma cidade, ele perde sua capacidade”, explica Gregorio-Monsalvo.

O Chile já perdeu um observatório internacional no passado devido ao avanço da atividade industrial na região. Para os cientistas, isso serve como alerta.

“Tivemos 70 anos para aprender com a história”, afirma Unda-Sanzana. “Não podemos repetir os mesmos erros.”

O Deserto do Atacama não é apenas um local privilegiado para observar o universo, ele é uma ferramenta científica global. Sua preservação pode determinar até onde a humanidade conseguirá avançar na compreensão do cosmos.

Enquanto telescópios como o ELT prometem revelar planetas semelhantes à Terra, a manutenção de céus escuros continua sendo uma condição essencial para que essa busca seja possível



Sobre a Imagem: Um Telescópio Extremamente Grande está sendo construído pelo Observatório Europeu do Sul, no Deserto do Atacama, Chile, na terça-feira, 14 de abril de 2026. Crédito: Foto AP/Esteban Felix.

Fonte: https://phys.org/news/2026-04-threat-pollution-world-darkest-skies.html


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