Há décadas, cientistas debatem por quanto tempo Marte conseguiu sustentar condições adequadas para a vida. Hoje sabemos que o planeta vermelho já teve rios, lagos e até um vasto oceano, além de uma atmosfera mais densa capaz de proteger a superfície. Contudo, entre 4,2 e 3,7 bilhões de anos atrás, sua atmosfera começou a ser erodida pelo vento solar, levando ao desaparecimento da água líquida na superfície. Ainda assim, novas descobertas continuam expandindo o limite dessa antiga habitabilidade.

Um estudo recente liderado por pesquisadores da Universidade de Nova York em Abu Dhabi (NYUAD) indica que Marte pode ter mantido ambientes úmidos (e potencialmente habitáveis) por muito mais tempo do que se pensava. A investigação se baseia em dados enviados pelo rover Curiosity, que há mais de uma década explora a Cratera Gale, um local considerado chave para reconstruir a história do planeta.

A equipe analisou formações sedimentares na chamada Formação Stimson, uma camada rochosa composta por antigas dunas de areia endurecidas, processo conhecido como litificação. Essas dunas, originalmente frágeis e moldadas pelo vento, parecem ter sido transformadas em rocha após interações repetidas com água subterrânea.

Segundo os pesquisadores, isso teria ocorrido no final do Período Noachiano, entre 4,1 e 3,7 bilhões de anos atrás, uma fase em que inundações esporádicas e um ciclo hidrológico ainda ativo percorriam a Cratera Gale. A água teria percolado pelas dunas, reagido com os minerais e deixado para trás sinais químicos de sua passagem.

Entre esses sinais, está a presença de gesso, um mineral sulfato formado apenas na presença de água e amplamente encontrado em ambientes desérticos da Terra. A comparação com formações semelhantes nos Emirados Árabes Unidos reforçou a visão de que a litificação em Gale dependeu de um sistema persistente de água subterrânea.

A descoberta tem profundos impactos na astrobiologia. Na Terra, rochas sedimentares como arenitos são famosas por preservar alguns dos mais antigos vestígios de vida, incluindo biofilmes microbianos que ajudam a cimentar grãos de areia.

Se o mesmo processo ocorreu em Marte, essas formações litificadas poderiam conter sinais fossilizados de microrganismos que viveram no subsolo marciano, protegidos da radiação e mantendo contato constante com água.

O estudo também dialoga com pesquisas anteriores apresentadas na Décima Conferência Internacional sobre Marte, que analisaram depósitos semelhantes nos Pedimentos de Greenheugh, uma região próxima explorada pelo Curiosity.

Em ambos os casos, os resultados apontam para um Marte onde a água subterrânea continuou moldando a paisagem mesmo após a atmosfera ter rarefeito, prolongando a janela de habitabilidade por milhões ou até bilhões de anos além das estimativas tradicionais.

As conclusões reforçam a ideia de que Marte não se tornou inóspito de maneira abrupta. Em vez disso, manteve bolsões úmidos e sistemas subterrâneos ativos por longos períodos, capazes de sustentar reações químicas complexas, e talvez vida microscópica.

Para futuras missões, essas regiões litificadas tornam-se alvos estratégicos. Elas podem guardar as respostas mais preservadas sobre como era Marte quando ainda podia abrigar vida.


Sobre a Imagem: O rover Curiosity da NASA em Marte. Crédito: NASA/JPL-Caltech

Fonte: https://nyuad.nyu.edu/en/news/latest-news/science-and-technology/2025/november/nyuad-research-uncovers-mars-water-history.html

Link do Estudo: https://agupubs.onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1029/2024JE008804


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