
Astrônomos identificaram o mais distante e mais energético círculo de rádio estranho (Odd Radio Circle, ou ORC) já registrado. Esses enigmáticos anéis de emissão de rádio, descobertos pela primeira vez em 2019, estão entre as estruturas cósmicas mais misteriosas e fascinantes já observadas no universo. A nova descoberta, publicada no Monthly Notices of the Royal Astronomical Society, não apenas amplia os limites do que sabemos sobre esses objetos raros, como também sugere que eles podem estar ligados a superventos galácticos, fluxos poderosos de matéria e energia soprados para fora de galáxias ativas.
Os ORCs são estruturas gigantescas, em forma de anel, visíveis apenas em frequências de rádio. Eles chegam a ser 10 a 20 vezes maiores do que a Via Láctea, alcançando milhões de anos-luz de diâmetro. A origem desses objetos permanece em debate, mas hipóteses anteriores apontavam para explosões colossais de buracos negros supermassivos ou mesmo colisões entre galáxias.
A nova pesquisa abre um leque adicional de possibilidades: em vez de serem apenas resquícios de eventos violentos e únicos, os ORCs podem ser o produto contínuo de interações entre jatos de plasma relativístico e o ambiente cósmico, alimentados por ventos galácticos.
O novo objeto foi batizado de RAD J131346.9+500320 e se localiza a quase 8 bilhões de anos-luz de distância (desvio para o vermelho de ~0,94), quando o universo tinha apenas metade de sua idade atual. Além de ser o mais distante, este ORC também é o mais poderoso em termos de emissão de rádio já identificado.
Um detalhe impressionante é que ele não apresenta apenas um, mas dois anéis que se cruzam. Essa rara configuração, registrada apenas uma outra vez na astronomia, sugere que os processos físicos por trás de sua formação podem ser mais complexos do que se imaginava.
O achado foi possível graças à colaboração entre astrônomos profissionais e cientistas cidadãos do projeto RAD@home Astronomy Collaboratory, em parceria com o radiotelescópio europeu LOFAR (Low-Frequency Array).
O LOFAR é o mais sensível observatório do mundo em baixas frequências de rádio (10–240 MHz), formado por centenas de milhares de antenas espalhadas pela Europa, funcionando como um único telescópio gigante. Com ele, foi possível captar os sinais tênues e de longo alcance desse ORC inédito.
O astrônomo Ananda Hota, líder da pesquisa, destacou:
“ORCs estão entre as estruturas cósmicas mais bizarras e belas já vistas. Eles podem conter pistas vitais sobre a evolução conjunta de buracos negros e galáxias. O fato de cientistas cidadãos terem sido cruciais nessa descoberta mostra que o olhar humano ainda é insubstituível, mesmo na era da inteligência artificial.”
Além do ORC duplo e distante, a equipe identificou mais dois objetos colossais:
- RAD J122622.6+640622: uma galáxia de quase 3 milhões de anos-luz de diâmetro, mais de 25 vezes o tamanho da Via Láctea. Um de seus jatos forma um anel de 100 mil anos-luz de largura, algo nunca visto antes nesse tipo de estrutura.
- RAD J142004.0+621715: estende-se por 1,4 milhão de anos-luz e apresenta um anel de emissão de rádio em uma extremidade, com um jato estreito na outra.

Ambos estão em aglomerados galácticos massivos, sugerindo que a interação entre jatos de buracos negros e o plasma quente que permeia esses ambientes é capaz de gerar estruturas de rádio espetaculares.
A descoberta do ORC mais distante e dos outros dois gigantes confirma que essas estruturas não são casos isolados. Elas fazem parte de uma categoria maior de fenômenos cósmicos ligados à interação de buracos negros, ventos galácticos e o plasma interestelar.
Além disso, o estudo reforça que a ciência cidadã pode desempenhar um papel fundamental em grandes descobertas astronômicas. Mesmo em tempos de algoritmos avançados e aprendizado de máquina, o olhar humano permanece essencial para reconhecer padrões sutis que softwares podem deixar passar.
Com a chegada de observatórios ainda mais poderosos, como o Square Kilometer Array (SKA) (o maior radiotelescópio já projetado) e levantamentos ópticos como o DESI e o LSST do Observatório Vera C. Rubin, os cientistas esperam mapear centenas ou milhares de ORCs nos próximos anos.
Esses levantamentos fornecerão dados cruciais sobre o ambiente das galáxias hospedeiras, ajudando a revelar se os ORCs são produtos de explosões únicas, de ventos persistentes ou de interações complexas com o plasma cósmico.
Enquanto isso, RAD J131346.9+500320 e seus companheiros recém-descobertos marcam um novo capítulo na busca para compreender as estruturas mais estranhas, vastas e enigmáticas do universo.
Sobre a Imagem: Uma imagem estática da animação de RAD J131346.9+500320. Crédito: RAD@home Astronomy Collaboratory (Índia)
Link do estudo: https://academic.oup.com/mnras/article/543/2/1048/8267915?login=false

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