
Durante décadas, a humanidade tem voltado radiotelescópios para o céu em busca de sinais de vida inteligente além da Terra. Desde o Projeto Ozma, em 1960, até o atual e ambicioso Breakthrough Listen, lançado em 2016, astrônomos vêm investigando transmissões de rádio que poderiam indicar a existência de civilizações extraterrestres. Agora, uma nova pesquisa propõe uma abordagem ainda mais ousada: em vez de procurar sinais isolados de estrelas individuais, cientistas sugerem que galáxias inteiras podem revelar a presença de populações de civilizações avançadas.
O trabalho foi conduzido por Brian C. Lacki, astrônomo teórico ligado ao Observatório Nacional de Radioastronomia (NRAO) e membro da iniciativa Breakthrough Listen. O artigo, publicado no arXiv e submetido à Publications of the Astronomical Society of the Pacific, analisa a possibilidade de identificar galáxias com brilho anômalo no espectro de rádio como potenciais candidatas a hospedar múltiplas civilizações transmissoras.
A ideia parte de um conceito simples, mas provocador: enquanto buracos negros supermassivos e núcleos galácticos ativos já produzem naturalmente ondas de rádio intensas, um excesso inesperado de emissões poderia ser sinal de transmissões artificiais somadas. Em outras palavras, se várias sociedades tecnológicas de uma galáxia utilizarem rádio para comunicação, energia ou navegação, o brilho coletivo pode se destacar em levantamentos astronômicos.
Para estimar a probabilidade desse cenário, Lacki aplicou modelos matemáticos baseados na escala de Kardashev, que mede o nível tecnológico de uma civilização pelo uso de energia. Ele concluiu que civilizações do Tipo III, capazes de aproveitar a energia de uma galáxia inteira, são extremamente raras: menos de uma em cada 100 mil galáxias teria chance de abrigar uma sociedade desse porte.
Por outro lado, sociedades intermediárias (apelidadas de “Tipo 2,75”) poderiam existir em até 1 em cada 100 grandes galáxias, transmitindo no rádio o equivalente a uma fração significativa da luminosidade total de suas estrelas.
Apesar do potencial da técnica, o desafio central é diferenciar emissões artificiais de processos cósmicos naturais. Galáxias já brilham em rádio devido a fenômenos astrofísicos conhecidos, como explosões de supernovas ou atividade em torno de buracos negros. Assim, a assinatura coletiva de civilizações precisaria se sobressair estatisticamente em levantamentos com milhares de objetos celestes.
“Não é possível afirmar se um sinal é natural ou artificial apenas pela intensidade no rádio”, reconheceu Lacki. “Mas conseguimos impor limites superiores e calcular quão improvável é a existência de uma galáxia repleta de transmissões artificiais.”
O estudo dialoga com buscas complementares por tecnossinaturas, como as famosas esferas de Dyson, estruturas hipotéticas que captariam a energia de estrelas inteiras, emitindo excesso de radiação infravermelha. Lacki sugere que, no futuro, o SETI deve ampliar suas estratégias para além das ondas de rádio, explorando também faixas como raios X, raios gama e infravermelho.
Essa expansão ajudaria a enfrentar o Paradoxo de Fermi, a questão de por que ainda não encontramos provas de vida inteligente se o universo parece favorável a ela. A resposta pode estar justamente em sinais sutis, difusos e coletivos, escondidos no brilho de galáxias distantes.
Sobre a Imagem: Centaurus A é um exemplo famoso de uma radiogaláxia relativamente próxima. Dentro da galáxia há um buraco negro supermassivo, que gera os grandes jatos que podem ser vistos emergindo perpendicularmente ao disco da galáxia. Crédito: NASA/ESO/WFI/MPIfR/APEX/CXC/CfA/A.Weiss et al.
Link do estudo: https://arxiv.org/abs/2508.00249

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