
Objeto raro, batizado de ORC J0356–4216, pode ser vestígio de atividade antiga de buraco negro ou resultado de choque entre galáxias.
Astrônomos da Universidade Ruhr em Bochum, na Alemanha, e colaboradores internacionais observaram um dos fenômenos mais enigmáticos do universo: um círculo de rádio ímpar (ORC, na sigla em inglês). O objeto, chamado ORC J0356–4216, foi analisado com novas técnicas que começam a revelar pistas sobre sua origem.
Os resultados, divulgados em 5 de setembro no servidor científico arXiv, reforçam a importância desses objetos raríssimos, que intrigam a comunidade astronômica desde sua descoberta em 2019.
Os ORCs são enormes estruturas circulares de ondas de rádio, geralmente invisíveis em outros comprimentos de onda, como luz visível, infravermelho ou raios X. Apenas alguns exemplares foram identificados até hoje, tornando sua origem um dos grandes mistérios da astrofísica moderna.
O ORC J0356–4216 foi detectado pela primeira vez em outubro de 2023 pelo radiotelescópio MeerKAT, na África do Sul. Desde então, astrônomos recorreram a observações complementares com o Australian SKA Pathfinder (ASKAP) para obter informações mais detalhadas.
As novas observações revelaram que o ORC possui um anel duplo simétrico, com diâmetro de cerca de 2,18 milhões de anos-luz, uma escala colossal. Ele está localizado a um desvio para o vermelho de 0,494, na galáxia WISEA J035609.67–421603.5, e apresenta características semelhantes a uma frente de choque cósmica.
Entre os resultados, os pesquisadores destacam:
- Índices espectrais íngremes (–1,18 e –1,12), típicos de emissões de rádio de elétrons altamente energéticos;
- Campos magnéticos fracos, em torno de 1,7 microgauss;
- Polarização significativa (20–30%), com linhas de campo magnético alinhadas tangencialmente ao anel.
Esses indícios sugerem que a estrutura é produto de processos energéticos extremos.
Duas explicações principais estão sendo consideradas para a origem do ORC J0356–4216:
- Atividade antiga de um núcleo galáctico ativo (AGN):
O objeto pode ser um remanescente de jatos emitidos por um buraco negro supermassivo no centro da galáxia hospedeira, em uma fase passada de intensa atividade. - Choque entre galáxias:
Outra possibilidade é que o ORC seja resultado de uma onda de choque gigantesca produzida por fusões ou interações entre grupos de galáxias.
Segundo os autores, a primeira hipótese (relacionada ao AGN) parece mais consistente com os dados disponíveis, especialmente pela morfologia do anel duplo e pelas propriedades de polarização.
Apesar dos avanços, a natureza exata do ORC J0356–4216 ainda não foi decifrada. Novas observações com radiotelescópios mais sensíveis, como o futuro Square Kilometre Array (SKA), devem ajudar a confirmar sua origem.
Enquanto isso, cada novo ORC descoberto representa uma oportunidade única de explorar processos cósmicos extremos, ampliando o conhecimento sobre como buracos negros, galáxias e campos magnéticos interagem em escalas colossais.
Sobre a Imagem: Mapa de fundo do MeerKAT de 1,28 GHz mostrando ORC J0356–4216 e a galáxia hospedeira. Crédito: arXiv (2025). DOI: 10.48550/arxiv.2509.04981
Link do estudo: https://arxiv.org/abs/2509.04981

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