
Júpiter é o palco das auroras mais espetaculares do Sistema Solar. Brilhando intensamente nos polos do planeta gigante, essas cortinas de luz não apenas encantam os olhos, mas também revelam como Júpiter interage tanto com o vento solar quanto com suas maiores luas. Ao contrário da Terra, onde a Lua não gera auroras próprias, cada uma das quatro luas galileanas (Io, Europa, Ganimedes e, agora, também Calisto) deixa sua marca luminosa na atmosfera joviana.
Durante décadas, os astrônomos sabiam da existência das chamadas “pegadas de satélite” produzidas por três dessas luas. Faltava apenas confirmar a de Calisto, a mais distante das quatro irmãs descobertas por Galileu Galilei em 1610. Apesar de múltiplas tentativas com o Telescópio Espacial Hubble, a assinatura auroral de Calisto permanecia elusiva, muitas vezes apagada pela oval auroral principal de Júpiter, tão brilhante que ofuscava sinais mais tênues.
A resposta veio graças à missão Juno da NASA, em órbita de Júpiter desde 2016. Durante sua 22ª passagem pelo planeta, em setembro de 2019, dois fatores se alinharam por coincidência rara: a oval auroral principal se deslocou, abrindo uma brecha para observações claras, e a trajetória da sonda cruzou exatamente a linha do campo magnético que conecta Calisto a Júpiter.
Essa combinação permitiu que os instrumentos da Juno captassem não apenas imagens da tênue aurora gerada por Calisto, mas também dados diretos de partículas, campos magnéticos e ondas eletromagnéticas associados à interação. Foi a primeira vez que a pegada auroral da lua mais externa se revelou em toda sua extensão.
O momento foi ainda mais oportuno porque, naquele período, uma corrente de alta densidade do vento solar atingia a magnetosfera joviana. Assim como tempestades solares deslocam as auroras da Terra, essa perturbação empurrou as auroras de Júpiter em direção ao equador do planeta, expondo a assinatura discreta de Calisto.
Com isso, ficou claro que todas as quatro luas galileanas produzem pegadas aurorais próprias, embora cada uma de maneira distinta, dependendo de suas características e da interação com o ambiente magnético local.
O estudo, liderado por Jonas Rabia do Institut de Recherche en Astrophysique et Planétologie (IRAP), França, e publicado em Nature Communications em 1º de setembro de 2025, fecha uma lacuna de décadas no entendimento das interações de Júpiter com suas luas.
Io, com seus vulcões ativos, injeta enormes quantidades de partículas carregadas na magnetosfera. Europa, com seu oceano subterrâneo, contribui com gelo e vapor d’água. Ganimedes, a maior lua do Sistema Solar, tem até mesmo um campo magnético próprio que deixa marcas intensas nas auroras de Júpiter. Agora, Calisto, embora distante e menos ativa, mostra que também participa desse diálogo cósmico com o planeta gigante.
Essa confirmação não é apenas simbólica: completa um quadro unificado da relação de Júpiter com suas luas, essencial para compreender tanto a dinâmica da magnetosfera joviana quanto os processos que podem ocorrer em outros sistemas planetários além do nosso.
Sobre a imagem: Juno captura as marcas em Júpiter de todas as quatro luas galileanas. As auroras relacionadas a cada uma delas são identificadas por Io, Eur (de Europa), Gan (de Ganimedes) e Cal (de Calisto). Crédito: NASA/JPL-Caltech/SwRI/Equipe UVS/MSSS/Gill/Jónsson/Perry/Hue/Rabia

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