
Um estudo recente liderado por Vincent Chevrier, do Centro de Ciências Espaciais e Planetárias da Universidade do Arkansas, aponta que pequenas quantidades de água líquida podem se formar temporariamente na superfície de Marte. A pesquisa sugere que salmouras, misturas altamente salinas com ponto de fusão muito baixo, podem surgir por curtos períodos durante o derretimento de geadas marcianas, especialmente no final do inverno e início da primavera.
A descoberta se baseia na análise de dados coletados pela missão Viking 2 da NASA, que pousou em Marte em 1976 e foi a única a registrar a presença clara de geada na superfície do planeta. Cruzando essas informações com simulações atmosféricas, Chevrier identificou janelas curtas, duas vezes ao dia, em que as temperaturas oscilam em torno de -75 °C, permitindo a formação temporária de salmouras de perclorato de cálcio.
Esse tipo de sal pode permanecer em estado líquido em temperaturas extremamente baixas, o que o torna um dos candidatos mais promissores para a existência de água em Marte. A temperatura média no planeta é de cerca de -50 °C, o que torna essas janelas sazonais teoricamente possíveis.
Apesar disso, a quantidade de líquido gerada seria mínima. O perclorato de cálcio representa apenas uma pequena fração do solo marciano, e a camada de geada observada tem menos de um milímetro de espessura. Mesmo assim, a possibilidade de formação recorrente de salmouras líquidas representa um avanço importante para a astrobiologia.
Segundo Chevrier, a correlação entre o ciclo das geadas e a presença de salmouras pode ajudar no planejamento de futuras missões robóticas. Ele defende que sondas equipadas com sensores de umidade e análise química poderiam ser direcionadas a essas regiões nos momentos certos para confirmar a presença de água.
Embora não represente um ambiente propício à vida humana, a descoberta reforça a hipótese de que Marte pode ter abrigado, em algum momento do passado, formas de vida adaptadas a condições extremamente secas e frias.
Sobre a imagem: A primeira foto colorida tirada pela Viking 2 na superfície marciana mostra uma superfície rochosa avermelhada muito parecida com a vista pela Viking 1 a mais de 6400 quilômetros de distância. Créditos: NASA/JPL
Link do estudo: https://www.nature.com/articles/s43247-025-02411-0

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