Em uma região remota do Sistema Solar, astrônomos identificaram um objeto incomum que parece dançar no mesmo ritmo de Netuno. Chamado 2020 VN40, esse pequeno corpo gelado está em uma órbita sincronizada com o planeta gigante, completando uma volta ao redor do Sol para cada dez órbitas de Netuno.

A descoberta, feita por uma equipe do Centro de Astrofísica Harvard-Smithsonian, traz novos indícios sobre como objetos distantes se comportam e como a gravidade dos grandes planetas molda essas órbitas ao longo do tempo. A pesquisa foi publicada no Planetary Science Journal.

O 2020 VN40 pertence a uma categoria conhecida como objetos transnetunianos — corpos localizados além da órbita de Netuno, em regiões ainda pouco exploradas. O que chama atenção nesse caso é não apenas a relação orbital com Netuno, mas também a trajetória do objeto: sua órbita é altamente inclinada, distanciando-se bastante do plano onde orbitam os planetas tradicionais.

O levantamento responsável por detectar o 2020 VN40 foi o projeto LiDO, sigla para Large Inclination Distant Objects. Ele foi projetado para encontrar objetos com órbitas pouco usuais, usando grandes telescópios como o Canadá-França-Havaí, o Gemini e o Magellan Baade. A busca foca justamente em regiões onde, até recentemente, se conhecia pouco.

Segundo a astrônoma Rosemary Pike, que liderou a equipe, a descoberta mostra que mesmo as regiões mais distantes do Sistema Solar ainda estão sob a influência gravitacional de Netuno. Para os pesquisadores, objetos como o 2020 VN40 podem ter sido capturados temporariamente por essa influência e mantidos em órbitas estáveis por longos períodos.

Um detalhe curioso do novo objeto é o momento em que ele se aproxima mais do Sol. Ao contrário da maioria dos corpos em ressonância com Netuno, que tendem a se afastar do planeta nessa fase, o 2020 VN40 atinge sua maior aproximação quase ao mesmo tempo que Netuno, embora em regiões completamente diferentes do espaço. Esse comportamento só é perceptível por meio de simulações tridimensionais, já que, em projeções planas, eles parecem quase sobrepostos.

Para Ruth Murray-Clay, da Universidade da Califórnia em Santa Cruz, essa diferença revela uma espécie de “ritmo oculto” no movimento desses objetos. Segundo ela, isso pode levar os astrônomos a repensarem como a ressonância com planetas gigantes influencia órbitas altamente inclinadas.

O levantamento LiDO já encontrou mais de 140 objetos distantes e os pesquisadores acreditam que muitos outros, com comportamentos semelhantes, serão identificados nos próximos anos. Telescópios como o Observatório Vera C. Rubin, ainda em fase de preparação, devem permitir uma visão ainda mais ampla dessas regiões do Sistema Solar.

Para a astrônoma Kathryn Volk, do Instituto de Ciências Planetárias, o trabalho abre novas possibilidades de investigar o passado do Sistema Solar. Ao mapear esses padrões raros de movimento, cientistas esperam compreender melhor como o sistema se formou e evoluiu ao longo de bilhões de anos.

Sobre a imagem: A imagem mostra as órbitas de todos os objetos descobertos no Outer Solar System Origins Survey. A órbita de 2020 VN40 é a mais espessa, inclinada para cima e para a esquerda em relação às órbitas da maioria dos objetos. As órbitas dos planetas gigantes Júpiter, Saturno, Urano e Netuno são os círculos brancos. Créditos: Rosemary Pike, CfA

Link do estudo: https://iopscience.iop.org/article/10.3847/PSJ/addd22


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