
Na recepção de abertura da 246ª Reunião da Sociedade Astronômica Americana (AAS), algo pairava no ar além da expectativa habitual: um certo silêncio. “Parece menor este ano, menos movimentado”, comentou Colin Wallace, professor da Universidade da Carolina do Norte, enquanto observava o salão com menos gente e menos estandes do que o normal. Ele e outros cientistas logo perceberam o motivo. A NASA, presença constante e fundamental nesses encontros, não estava lá.
A ausência da agência espacial norte-americana, acompanhada pela igualmente notável falta da Fundação Nacional de Ciência (NSF), causou desconforto entre os participantes. Não era apenas uma ausência institucional. Era simbólica. Ambas as organizações sustentam parte significativa da infraestrutura científica dos Estados Unidos, operando desde telescópios como o Hubble e o James Webb até observatórios de ondas gravitacionais como o LIGO. Vê-las fora de um evento como esse foi, para muitos, um sinal claro de tempos difíceis.
“Sinceramente, tem sido um pouco devastador”, admitiu Kevin Hardegree-Ullman, do Instituto de Ciência de Exoplanetas da NASA. “Mesmo projetos financiados por eles estão enfrentando obstáculos para viajar. Alguns colegas só conseguiram vir depois de muito esforço administrativo.”
A explicação oficial aponta para cortes e reestruturações que têm como pano de fundo a proposta de orçamento do governo federal para 2026. Essa proposta sugere reduções drásticas nos recursos destinados à ciência básica, inclusive nos programas de formação e inclusão que até então vinham sendo fortalecidos. Ao mesmo tempo, aumenta os investimentos em tecnologias voltadas à exploração de Marte e na colaboração com empresas privadas.
Essa mudança de foco foi sentida também na programação da AAS. Tradicionalmente, a NASA e a NSF realizam sessões públicas conhecidas como Town Halls, encontros informais em que representantes dialogam diretamente com pesquisadores, estudantes e jornalistas. Neste ano, foram canceladas.
Para Spencer Riley, doutorando da Universidade Estadual de Montana, isso levantou suspeitas. Esses eram espaços onde se podia fazer perguntas difíceis. Talvez seja por isso que decidiram não participar.
A ausência teve implicações práticas, mas também emocionais. Estudantes estrangeiros, por exemplo, não conseguiram apoio para viajar ao evento. Lucy Steffes, doutoranda na Universidade do Arizona, teme pelo futuro. Sua bolsa vem da NSF. Se os cortes forem aprovados, não sabe se conseguirá concluir o doutorado.
Durante as sessões, os temas políticos surgiram mesmo quando não estavam no roteiro. Professores se levantaram para defender seus alunos. Outros questionaram abertamente as decisões recentes da NASA. Houve quem dissesse, entre aplausos tímidos, que simples petições talvez já não sejam suficientes.
Apesar do clima sombrio, a disposição de muitos permanece intacta. A ciência já passou por outros momentos difíceis, disse Hardegree-Ullman. Mas sempre foram os próprios cientistas que seguraram a barra.
Com a NASA priorizando Marte e reforçando laços com gigantes privados como a SpaceX, os fóruns públicos de diálogo e construção coletiva parecem, ao menos por ora, em segundo plano. E essa é talvez a maior perda, segundo um participante que se despedia no fim do evento. É nos encontros como este que nascem as ideias mais ousadas. Mas ideias precisam de espaço e de escuta. Sem isso, o que sobra é o silêncio. E o silêncio não move foguetes.

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