O radônio-222, um gás radioativo utilizado para rastrear o movimento de fluidos na Terra, também pode fornecer pistas sobre processos geológicos em Marte e na Lua. No entanto, a presença e a origem desse gás em ambientes extraterrestres ainda são pouco compreendidas devido à escassez de amostras diretas desses corpos celestes.

Um estudo publicado recentemente na Scientific Reports da Nature revela informações inéditas sobre a emanação de radônio em Marte e na Lua, utilizando medições feitas em meteoritos provenientes desses locais. Os pesquisadores analisaram amostras raras para estimar os fluxos de radônio na superfície de Marte e da Lua, oferecendo novas perspectivas sobre a geologia desses corpos planetários e possíveis atividades sísmicas que podem ocorrer neles.

Na Terra, o radônio-222 é amplamente utilizado como um rastreador natural para detectar a movimentação de fluidos subterrâneos e aerossóis. Ele se forma a partir do decaimento radioativo do rádio-226, parte da cadeia de decaimento do urânio-238.

A presença de radônio em Marte e na Lua pode revelar processos geológicos ativos, incluindo interações passadas com água líquida e a ocorrência de tremores sísmicos. Até agora, estudos de radônio nesses corpos celestes eram limitados e indiretos.

Os cientistas analisaram uma coleção de seis meteoritos marcianos e nove meteoritos lunares para determinar a quantidade de radônio que esses objetos poderiam liberar. As amostras incluíram tipos variados de rochas, como basalto e brechas, com a finalidade de obter uma visão abrangente sobre as condições em Marte e na Lua.

Os resultados indicaram que os meteoritos marcianos e lunares possuem concentrações de radônio menores do que a maioria das rochas terrestres, mas similares a outros tipos de meteoritos. A análise focou na concentração efetiva de rádio-226 (EC Ra), que determina a capacidade das rochas de gerar radônio.

Além disso, foi medido o coeficiente de emanação do radônio, ou seja, a facilidade com que o radônio escapa das rochas. Esse valor foi encontrado em torno de:

  • 8,1% para meteoritos marcianos
  • 5,5% para meteoritos lunares

Essas medições fornecem uma base sólida para estimar a quantidade de radônio que poderia ser liberada em Marte e na Lua, ajudando a construir uma imagem mais detalhada de suas superfícies.

Os cientistas usaram modelos matemáticos para simular o comportamento do radônio nas superfícies de Marte e da Lua, considerando fatores como a porosidade do solo e as temperaturas extremas. Eles estimaram que:

  • Marte: Fluxo de radônio entre 0,16 e 0,60 mBq/m²/s (~80–280 átomos/m²/s)
  • Lua: Fluxo de radônio entre 0,33 e 0,44 mBq/m²/s (~160–210 átomos/m²/s)
  • Terra: Aproximadamente 21 mBq/m²/s (~10⁴ átomos/m²/s)

Esses valores mostram que Marte e a Lua têm fluxos de radônio muito menores do que a Terra, o que é consistente com suas condições geológicas distintas e a falta de tectônica ativa.

Os resultados deste estudo são significativos para futuras missões a Marte e à Lua, pois o radônio pode ser um indicador de processos geológicos ativos. A detecção de radônio em Marte, por exemplo, pode ajudar a identificar regiões com maior potencial para ter água líquida no passado ou áreas sujeitas a tremores sísmicos.

Além disso, os dados de radônio podem ser utilizados para:

  • Monitorar atividade sísmica: Detecção de abalos que liberem radônio da subsuperfície.
  • Identificar áreas de interesse científico: Regiões com radônio poderiam ter condições geológicas únicas, propícias para o estudo de antigos processos aquáticos.

A recente missão Chang’e 6, que trouxe amostras do lado “oculto” da Lua em 2024, também poderá ajudar a validar essas estimativas com medições diretas no local.

Este estudo fornece uma base valiosa para entender a dinâmica geológica de Marte e da Lua, usando medições indiretas de meteoritos. A análise mostra que esses corpos planetários têm uma liberação de radônio bem menor que a Terra, mas que ainda pode ser significativa para revelar processos geológicos ativos.

Com missões futuras planejadas para Marte e para a Lua, incluindo medições in situ mais detalhadas, espera-se que as descobertas sobre o radônio ajudem a compreender melhor a história geológica desses mundos e as condições que podem ter existido para sustentar água líquida — um passo fundamental na busca por vida fora da Terra.

Fonte: https://www.nature.com/articles/s41598-025-86842-x

Sobre a imagem: Ilustraçãom mostrando a Lua e Marte. Créditos da imagem: Ned Oliveira/Canva


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