A Lua, nosso satélite natural, pode ser muito mais velha do que as rochas coletadas em sua superfície indicam, revela um novo estudo publicado na revista Nature . Pesquisadores das principais instituições científicas, incluindo a Universidade da Califórnia em Santa Cruz e o Instituto Max Planck, sugerem que o vulcanismo violento da Lua antiga “resetou” seu relógio geológico, derretendo e reformando grande parte de sua crosta várias vezes após sua formação.

De acordo com o estudo, a Lua nasceu há cerca de 4,43 a 4,51 bilhões de anos, após um impacto colossal entre a Terra jovem e um objeto do tamanho de Marte. Esse evento catastrófico lançou fragmentos da Terra e do intruso cósmico ao espaço, que eventualmente se aglutinaram para formar a Lua. Inicialmente, ela estava coberta por um oceano de magma, que gradualmente esfriou.

Mas a história da Lua não foi tranquila. Quando orbitava a apenas um terço da distância atual da Terra, forças de maré agitavam intensamente seu interior, aquecendo e alimentando atividade vulcânica em escala global. Essa fase foi tão extrema que pode ser comparada ao que ocorre hoje em Io, a lua de Júpiter, conhecido como o corpo mais vulcanicamente ativo do Sistema Solar.

Os cientistas explicaram que, após a formação da crosta lunar, o intenso calor gerado pelo vulcanismo derreteu a maior parte da superfície da Lua – possivelmente várias vezes. Durante esses eventos, isótopos radioativos, usados ​​para calcular a idade das rochas, foram redefinidos, criando uma aparente contradição: enquanto os cristais raros de zircões indicam idades antigas, as amostras da crosta parecem significativamente mais jovens.

“Os zircões sobreviventes fornecem uma janela para o passado mais antigo da Lua. Eles resistiram ao calor extremo, preservando pistas valiosas sobre sua formação”, explica Thorsten Kleine, diretor do Instituto Max Planck e coautor do estudo.

Além de reconfigurar a crosta, o vulcanismo também oferece explicações para outros mistérios lunares. Por exemplo, as crateras antigas, que deveriam ser tão numerosas em uma superfície velha, foram provavelmente preenchidas por lava, tornando-as invisíveis. A composição química do manto lunar, que difere da Terra em aspectos cruciais, também foi afetada, com substâncias sendo redistribuídas entre o manto e o núcleo.

“É como se todas as peças do quebra-cabeça finalmente se encaixassem”, comenta Alessandro Morbidelli, do Collège de France, coautor do estudo.

Essa descoberta redefine não apenas a história da Lua, mas também o entendimento da evolução planetária em ambientes vulcanicamente ativos. O caso da Lua pode servir como modelo para estudar outros corpos celestes, como Io e exoplanetas em órbitas elípticas, onde forças de maré desempenham papéis cruciais.

Além disso, a pesquisa destaca como eventos dinâmicos, como colisões e vulcanismo, podem alterar as assinaturas geológicas, complicando a datação precisa de corpos planetários.

Os resultados também têm implicações práticas. Futuras missões lunares podem priorizar a coleta de amostras de regiões mais profundas ou menos afetadas pelo vulcanismo, como áreas protegidas de fluxos de lava. Combinado com avanços tecnológicos, isso pode ajudar a esclarecer ainda mais a história da Lua e sua interação com a Terra primitiva.

“Nossa companheira cósmica ainda tem muito a revelar”, conclui Kleine. “Ela nos conta sobre sua formação, seu passado violento e como esses eventos moldaram sua evolução.” Essas descobertas também podem orientar estudos sobre a origem e a evolução de outros corpos no sistema solar, trazendo novas perspectivas para o campo da ciência planetária.

Fontes: https://www.nature.com/articles/s41586-024-08231-0

https://www.mpg.de/23926372/old-moon-with-a-young-crust

Sobre a imagem: Concepção artística. Algumas centenas de milhões de anos após sua formação, a Lua estava sujeita a intensa atividade vulcânica. A distância entre a Terra e a Lua era muito menor naquela época do que é hoje. Créditos da imagem: MPS/Alexey Chizhik


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