Tempestade solar de 2024 revelou elétrons extremos em região protegida da Terra

Uma das tempestades solares mais intensas das últimas décadas provocou mudanças inesperadas no ambiente espacial ao redor da Terra. Durante o evento de maio de 2024, a sonda japonesa Arase detectou elétrons extremamente energéticos em uma região da magnetosfera onde essas partículas normalmente não conseguem permanecer. Agora, pesquisadores da Universidade de Nagoya, no Japão, encontraram evidências de que os elétrons não atravessaram simplesmente uma barreira magnética, mas ganharam energia dentro da própria região considerada protegida.

O estudo, publicado na revista científica Geophysical Research Letters, ajuda a esclarecer um fenômeno que intriga os pesquisadores desde 2014, quando foi identificada uma espécie de limite interno para elétrons ultrarrelativísticos nos cinturões de radiação da Terra. Embora tenha recebido o nome de “barreira impenetrável”, essa fronteira não é uma parede física, mas uma região onde processos eletromagnéticos normalmente impedem a presença persistente de partículas com energias extremamente elevadas.

A nova pesquisa mostra que, durante condições excepcionais de atividade solar, os mecanismos que regulam a distribuição dessas partículas podem mudar significativamente. A descoberta é importante não apenas para compreender o comportamento da magnetosfera, mas também para avaliar os riscos enfrentados por satélites e equipamentos eletrônicos expostos à radiação espacial.

A Terra possui um campo magnético que se estende muito além da atmosfera e forma uma região conhecida como magnetosfera. Essa estrutura interage continuamente com o vento solar, um fluxo de partículas carregadas emitidas pelo Sol, e desempenha um papel importante na maneira como a energia e a matéria provenientes do espaço se distribuem nas proximidades do planeta.

Dentro da magnetosfera existem regiões onde partículas carregadas ficam aprisionadas pelo campo magnético terrestre. São os cinturões de radiação de Van Allen, compostos principalmente por elétrons e prótons energéticos. Essas partículas percorrem trajetórias complexas, movimentando-se ao longo das linhas do campo magnético e circulando ao redor da Terra.

Os cinturões não são estruturas rígidas ou permanentes. Sua extensão e intensidade podem variar conforme a atividade solar, especialmente durante tempestades geomagnéticas. Nessas ocasiões, a interação entre o vento solar e o campo magnético terrestre pode alterar a quantidade de partículas aprisionadas, sua distribuição e suas energias.

Em 2014, observações realizadas pelas sondas Van Allen, da NASA, revelaram que elétrons com energias muito elevadas raramente conseguiam avançar além de um limite localizado a aproximadamente três raios terrestres do centro do planeta. Esse comportamento levou os cientistas a descrever a região como uma barreira aparentemente impenetrável.

Uma das explicações propostas envolve ondas eletromagnéticas naturais presentes na plasmasfera, uma região da magnetosfera que contém partículas carregadas relativamente frias e densas. Determinadas ondas podem interagir com os elétrons energéticos e modificar suas trajetórias, fazendo com que parte deles seja desviada para a atmosfera, onde acaba perdendo energia.

Assim, a barreira não impede fisicamente a passagem de partículas como faria uma parede. Ela resulta de processos que, em condições habituais, limitam a presença de elétrons ultrarrelativísticos nas regiões mais internas.

Em maio de 2024, uma sequência de intensa atividade solar atingiu a Terra e desencadeou uma tempestade geomagnética de grande magnitude. O evento produziu auroras em latitudes incomuns e provocou alterações expressivas na magnetosfera, tornando-se uma oportunidade importante para estudar como o ambiente espacial terrestre responde a condições extremas.

Durante e após a tempestade, a missão japonesa Arase, operada pela Agência de Exploração Aeroespacial do Japão, registrou um aumento significativo na presença de elétrons altamente energéticos dentro do limite onde normalmente não seriam encontrados.

Algumas dessas partículas apresentavam energias superiores a três megaeletronvolts, uma unidade utilizada para medir a energia de partículas subatômicas. Nessa faixa, os elétrons se deslocam a velocidades extremamente próximas à da luz e podem representar riscos para componentes eletrônicos de espaçonaves.

A observação levantou uma questão importante: esses elétrons teriam sido transportados do cinturão de radiação externo para regiões mais próximas da Terra ou teriam sido acelerados no próprio local?

A distinção é fundamental porque os dois processos indicam comportamentos diferentes da magnetosfera. No primeiro caso, partículas que já possuíam energias elevadas teriam se deslocado para o interior. No segundo, elétrons presentes na região teriam recebido energia por meio de interações com ondas eletromagnéticas.

Para investigar o fenômeno, a equipe liderada por Yoshizumi Miyoshi, professor do Instituto de Pesquisa Ambiental Espaço-Terra da Universidade de Nagoya, analisou medições realizadas pela Arase ao longo de diferentes passagens pela região afetada.

Os pesquisadores examinaram a chamada densidade no espaço de fases, uma medida que descreve a distribuição das partículas levando em consideração características de seu movimento. Esse tipo de análise permite distinguir, com maior precisão, processos de transporte e de aceleração.

Os resultados revelaram o desenvolvimento de um máximo localizado nessa distribuição, próximo ao limite habitual da barreira, que se intensificou com o tempo. Esse comportamento favorece a interpretação de que os elétrons ganharam energia localmente, em vez de simplesmente chegarem já acelerados de regiões mais externas.

Além de identificar os elétrons energéticos, a Arase detectou ondas eletromagnéticas intensas conhecidas como ondas de coro. Elas recebem esse nome porque, quando seus sinais são convertidos em áudio, produzem sons que lembram o canto de pássaros.

Essas ondas ocorrem naturalmente na magnetosfera e podem transferir energia para elétrons por meio de um processo chamado interação ressonante. Isso acontece quando as características da onda correspondem a determinadas propriedades do movimento das partículas, permitindo uma troca eficiente de energia.

Os elétrons aprisionados no campo magnético terrestre não seguem trajetórias retas. Eles se movimentam em espiral ao redor das linhas do campo magnético e podem interagir repetidamente com ondas que se propagam pelo plasma. Dependendo das condições, essas interações podem aumentar suas energias até valores muito elevados.

A equipe encontrou evidências de que esse mecanismo foi particularmente importante durante a tempestade de maio de 2024. As observações das ondas de coro, combinadas com as mudanças na distribuição dos elétrons, são compatíveis com um processo de aceleração local.

Esquema da evolução da magnetosfera interna durante a supertempestade de maio de 2024. (a) Pré-tempestade: A plasmasfera (azul) estende-se até L * ∼ 6, e os cinturões de radiação (rosa) estão confinados fora da barreira impenetrável (círculo tracejado vermelho em L * ∼ 3). A magnetopausa está longe da Terra e não há ondas de coro presentes. (b) Fase principal: A plasmapausa contrai-se para L * ∼ 1,5, e a magnetopausa move-se para dentro até 4,9 R E . O cinturão de radiação reaparece em L * = 2,3–3,2, com o maior aumento próximo a L * ≈ 3, logo fora da plasmasfera. Ondas de coro intensas no lado da aurora (verde) emergem logo além da plasmapausa. (c) Fase de recuperação: Tanto a plasmasfera quanto a magnetopausa expandem-se para fora, enquanto as ondas de coro persistem no lado da aurora. O cinturão de radiação se intensifica e se espalha radialmente a partir de L * ∼ 3, onde o pico crescente da densidade do espaço de fase é identificado, levando à reformação de elétrons ultra-relativísticos dentro da barreira impenetrável. A elipse amarela em cada painel representa a órbita do satélite Arase durante a tempestade. Créditos: Miyoshi et al., Geophysical Research Letters , 2026.

Outro fator decisivo foi a alteração da plasmasfera. Durante a tempestade, sua região externa sofreu uma forte erosão, fazendo com que o limite do plasma mais denso recuasse para muito mais perto da Terra.

Com a redução da densidade de partículas frias, as condições próximas à barreira mudaram. Isso favoreceu a presença de elétrons mais energéticos e a geração das ondas de coro capazes de acelerá-los.

O efeito foi prolongado porque a plasmasfera demorou mais do que o habitual para recuperar sua densidade. Segundo os pesquisadores, em condições normais essa recuperação costuma ocorrer em aproximadamente dois dias. Após a tempestade de maio de 2024, foram necessários entre 4,3 e 4,7 dias para que a densidade de plasma na região estudada voltasse a ultrapassar metade do valor anterior ao evento.

Esse período prolongado de baixa densidade pode ter permitido que as ondas de coro continuassem atuando sobre os elétrons por vários dias, contribuindo para o aumento de sua energia em uma região normalmente desfavorável à presença dessas partículas.

Os resultados modificam a maneira como os pesquisadores compreendem os limites internos dos cinturões de radiação. A chamada barreira impenetrável continua sendo uma característica importante da magnetosfera em condições habituais, mas o estudo mostra que ela não representa uma garantia absoluta de ausência de elétrons ultrarrelativísticos.

O fenômeno também revela que a presença dessas partículas em regiões internas não precisa ser explicada exclusivamente por seu transporte a partir do cinturão externo. Sob determinadas condições, processos locais podem produzir elétrons com energias capazes de representar riscos para equipamentos espaciais.

Partículas altamente energéticas podem atravessar materiais de proteção, depositar cargas elétricas em componentes e provocar falhas em sistemas eletrônicos. Por isso, conhecer a distribuição da radiação ao redor da Terra é essencial para o desenvolvimento e a operação de satélites.

A descoberta não significa que a tempestade tenha eliminado o campo magnético terrestre ou comprometido a proteção da superfície do planeta. O fenômeno ocorreu em uma região específica da magnetosfera e está relacionado ao comportamento de partículas aprisionadas no ambiente espacial.

A pesquisa também não demonstra que todos os eventos solares intensos produzirão o mesmo resultado. A combinação entre a intensidade da tempestade, a erosão da plasmasfera, a persistência das condições de baixa densidade e a atividade das ondas eletromagnéticas foi especialmente importante para o episódio observado.

Compreender como esses fatores se relacionam poderá melhorar os modelos utilizados para prever alterações nos cinturões de radiação. Isso é particularmente relevante porque as tempestades geomagnéticas podem modificar rapidamente o ambiente atravessado por satélites, inclusive em regiões que normalmente apresentam níveis menores de determinadas partículas energéticas.

A missão Arase continua contribuindo para esse tipo de investigação ao medir simultaneamente partículas e ondas eletromagnéticas na magnetosfera. Dados como os obtidos durante a tempestade de 2024 permitem observar não apenas onde a radiação aumenta, mas também quais processos físicos podem estar produzindo essas mudanças.

O próximo desafio será determinar em quais circunstâncias a aceleração local pode voltar a ocorrer e como incorporá-la às previsões do clima espacial. Essas informações poderão ajudar os operadores de satélites a antecipar períodos de maior exposição à radiação e aprimorar a proteção dos equipamentos que dependem do ambiente espacial próximo à Terra.

Sobre a imagem: Esquema da evolução da magnetosfera interna durante a supertempestade de maio de 2024. Créditos da imagem: Miyoshi et al., Geophysical Research Letters , 2026.

https://agupubs.onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1029/2026GL125879