Terremoto em Marte revela possível atividade tectônica sob Valles Marineris

Durante muito tempo, Marte foi considerado um planeta cuja atividade geológica havia praticamente terminado. Sua superfície apresenta vulcões gigantescos, extensas fraturas e outras estruturas que testemunham um passado turbulento, mas a ausência de placas tectônicas móveis, como as da Terra, contribuiu para a ideia de que seu interior estaria relativamente inativo.

As observações da missão InSight, da NASA, começaram a modificar essa interpretação ao registrar centenas de eventos sísmicos no planeta.

Agora, uma nova análise dos dados da missão encontrou evidências de que Valles Marineris, o maior sistema de cânions do Sistema Solar, ainda apresenta atividade tectônica.

A pesquisa, liderada por Jung-Hun Song, do Imperial College London, com a participação de pesquisadores da Universidade Columbia e da Universidade de Illinois em Urbana-Champaign, foi publicada na revista Nature Communications.

Os resultados indicam que um terremoto marciano registrado em 25 de agosto de 2021 provavelmente teve origem no deslocamento de rochas ao longo de uma falha profunda, localizada sob a região de Valles Marineris.

A descoberta sugere que estruturas formadas durante os primeiros bilhões de anos da história marciana continuam capazes de acumular e liberar tensões.

O evento analisado pelos pesquisadores recebeu a identificação S0976a e foi registrado pelo sismômetro da InSight em 25 de agosto de 2021.

Diferentemente de muitos outros tremores detectados pela missão, sua origem foi localizada no hemisfério ocidental de Marte, a uma grande distância do módulo de pouso.

Estudos anteriores já haviam indicado que o evento poderia ter ocorrido nas proximidades da porção oeste de Valles Marineris.

Entretanto, sua causa permanecia incerta.

Os sinais poderiam ter sido produzidos por diferentes fenômenos, incluindo o impacto de um meteoroide, um deslizamento de terra ou uma ruptura tectônica.

Para investigar essas possibilidades, a equipe analisou as características das ondas sísmicas e construiu modelos capazes de reproduzir os sinais registrados pela InSight.

Os pesquisadores também examinaram imagens obtidas pela sonda Mars Reconnaissance Orbiter, da NASA, após a ocorrência do tremor.

As observações orbitais não revelaram uma nova cratera de impacto nem sinais evidentes de um grande deslizamento de terra que pudesse explicar o evento.

Além disso, os modelos desses processos não reproduziram adequadamente as características das ondas sísmicas observadas.

A explicação mais consistente foi a ocorrência de uma ruptura tectônica em profundidade.

Segundo os pesquisadores, o tremor provavelmente foi produzido por uma falha transcorrente, na qual dois blocos da crosta deslizam horizontalmente um em relação ao outro.

A ruptura teria ocorrido aproximadamente entre 20 e 40 quilômetros abaixo da superfície marciana.

Valles Marineris é uma das estruturas geológicas mais impressionantes de Marte.

O sistema de cânions se estende por aproximadamente 3.900 quilômetros, alcançando centenas de quilômetros de largura e profundidades superiores a oito quilômetros em determinadas regiões.

Sua formação está associada à evolução tectônica de Marte e ao desenvolvimento da região vulcânica de Tharsis.

Durante os primeiros bilhões de anos da história do planeta, processos internos provocaram grandes deformações na crosta.

O crescimento da extensa elevação de Tharsis contribuiu para produzir tensões capazes de fraturar a superfície marciana.

Essas fraturas deram origem a sistemas de falhas que, ao longo do tempo, foram ampliados por movimentos tectônicos, colapsos de encostas e outros processos geológicos.

Diferentemente da Terra, Marte não apresenta evidências de um sistema global de placas tectônicas móveis.

Sua camada externa rígida é frequentemente descrita como uma tampa estagnada, que envolve o interior do planeta sem participar de um processo contínuo de reciclagem semelhante ao observado na tectônica de placas terrestre.

Entretanto, uma crosta que não se divide em placas móveis ainda pode sofrer deformações.

Mudanças de temperatura, tensões acumuladas e forças associadas a antigas estruturas geológicas podem provocar movimentos ao longo de falhas.

O novo estudo indica que esse processo pode continuar ocorrendo sob Valles Marineris.

Uma das principais conclusões da pesquisa é que as falhas responsáveis pela formação de Valles Marineris não precisam estar completamente inativas.

Embora tenham se desenvolvido durante uma fase muito mais intensa da evolução geológica de Marte, essas estruturas continuam representando regiões de fraqueza na crosta.

Quando tensões se acumulam, uma falha preexistente pode voltar a se movimentar.

Os pesquisadores consideram que diferentes processos podem contribuir para esse acúmulo.

Um deles é o resfriamento gradual do interior marciano.

À medida que o planeta perde calor ao longo de bilhões de anos, mudanças em sua estrutura interna podem produzir tensões na crosta.

Outro fator envolve a influência das antigas regiões vulcânicas, especialmente Tharsis, cuja formação modificou profundamente a distribuição de tensões no planeta.

A própria geometria de Valles Marineris também pode influenciar a maneira como essas forças se distribuem.

A combinação desses processos poderia provocar a reativação de falhas formadas no passado.

O evento S0976a oferece uma possível evidência desse mecanismo.

Entretanto, os resultados não significam que todo o sistema de cânions esteja se movimentando continuamente.

O estudo identifica um evento sísmico compatível com uma ruptura tectônica profunda, demonstrando que ao menos parte das estruturas da região pode continuar sujeita a movimentos.

Na Terra, grande parte dos terremotos está associada ao movimento das placas tectônicas.

Essas placas se afastam, colidem ou deslizam umas em relação às outras, acumulando tensões que podem ser liberadas repentinamente.

Em Marte, os mecanismos são diferentes.

Como o planeta não apresenta tectônica de placas ativa semelhante à terrestre, os terremotos podem resultar de tensões internas acumuladas na crosta, do resfriamento planetário, de processos vulcânicos ou de impactos.

A missão InSight mostrou que esses eventos não são raros.

Durante seu período de operação, entre 2018 e 2022, o módulo registrou numerosos tremores, permitindo investigar pela primeira vez a atividade sísmica marciana de maneira sistemática.

Uma das regiões que mais se destacaram foi Cerberus Fossae, localizada em Elysium Planitia.

Essa área apresenta extensas fraturas e foi associada a diversos eventos sísmicos registrados pela missão.

As observações de Cerberus Fossae já indicavam que Marte não estava completamente inativo.

Agora, a identificação de uma possível ruptura tectônica sob Valles Marineris amplia o número de regiões nas quais existem evidências de atividade geológica atual.

Isso sugere que as tensões responsáveis pelos terremotos marcianos podem variar significativamente entre diferentes partes do planeta.

O evento S0976a também teve importância para pesquisas anteriores sobre a estrutura interna de Marte.

As ondas sísmicas produzidas pelo tremor percorreram longas distâncias e atravessaram regiões profundas do planeta antes de alcançar o sismômetro da InSight.

Como a velocidade e a trajetória dessas ondas dependem das propriedades dos materiais atravessados, seus registros permitem investigar a estrutura interna marciana.

Dados desse evento contribuíram para estudos sobre o núcleo de Marte, ajudando a aprimorar modelos de suas dimensões e composição.

Agora, os pesquisadores utilizaram as mesmas observações para investigar o mecanismo que produziu o tremor.

Essa abordagem demonstra como um único evento sísmico pode fornecer informações sobre diferentes regiões de um planeta.

As ondas permitem estudar tanto as camadas profundas atravessadas durante sua propagação quanto os processos que ocorreram na região de origem.

No caso de S0976a, a análise indica que a ruptura pode ter acontecido em uma falha profunda sob uma das estruturas geológicas mais conhecidas de Marte.

A InSight pousou em Marte em novembro de 2018 com o objetivo de investigar o interior do planeta.

Seu principal instrumento científico foi um sismômetro extremamente sensível, desenvolvido para detectar vibrações produzidas por terremotos, impactos e outros fenômenos.

Antes da missão, grande parte do conhecimento sobre a estrutura interna de Marte dependia de observações orbitais, medições gravitacionais e modelos teóricos.

Os registros sísmicos permitiram obter informações mais diretas sobre a crosta, o manto e o núcleo.

A missão terminou em dezembro de 2022, quando o acúmulo de poeira sobre os painéis solares reduziu a geração de energia a níveis insuficientes para continuar as operações.

Entretanto, os dados coletados permanecem disponíveis para novas análises.

O estudo de S0976a demonstra que essas informações ainda podem revelar características importantes da atividade geológica marciana.

Além de aprimorar o conhecimento sobre Valles Marineris, os resultados poderão ajudar os pesquisadores a compreender como planetas sem tectônica de placas ativa liberam tensões acumuladas em suas crostas.

A identificação de uma possível ruptura tectônica profunda sob Valles Marineris reforça a ideia de que Marte continua apresentando atividade geológica, mesmo sem possuir placas tectônicas móveis como as da Terra.

Isso não significa que o planeta esteja passando por uma fase de atividade comparável àquela responsável pela formação de seus grandes vulcões e sistemas de cânions.

A atividade atual parece ocorrer de maneira mais localizada e em condições diferentes das observadas durante os primeiros bilhões de anos de sua história.

Entretanto, os resultados mostram que antigas estruturas geológicas podem continuar influenciando o comportamento da crosta marciana.

A pesquisa também destaca a importância de futuras missões capazes de realizar observações sísmicas em diferentes regiões do planeta.

A InSight utilizou um único sismômetro, o que impôs limitações à localização precisa de alguns eventos.

Uma rede de instrumentos distribuídos pela superfície poderia permitir a identificação mais detalhada das falhas ativas e das tensões presentes no interior de Marte.

Com isso, seria possível compreender melhor como o planeta continua liberando energia interna e de que maneira sua atividade geológica evoluiu ao longo do tempo.

Mesmo depois do encerramento da missão InSight, seus registros continuam mostrando que Marte é geologicamente mais complexo do que se imaginava.

Sobre a Imagem: Ilustração artística do sistema de cânions Valles Marineris em Marte.

Créditos  da Imagem: Mark Garlick/Science Photo Library

Artigo Científico: https://www.nature.com/articles/s41467-026-78193-6 ,
https://www.imperial.ac.uk/news/articles/engineering/earth-science/2026/giant-canyon-on-mars-is-still-tectonically-active-today/