
A Via Láctea pode abrigar entre 100 milhões e 1 bilhão de buracos negros formados pelo colapso de estrelas massivas. Apesar dessa população estimada, apenas uma pequena parcela desses objetos foi identificada pelos astrônomos.
Uma das principais dificuldades é que muitos buracos negros podem existir isoladamente, sem estrelas companheiras e praticamente sem emitir radiação detectável.
Um estudo publicado na revista científica The Astrophysical Journal investigou a possibilidade de encontrar esses objetos nas proximidades do Sistema Solar, utilizando observações da missão Gaia, da Agência Espacial Europeia.
A pesquisa foi liderada por Abdurakhmon Nosirov, da Universidade Fudan, na China, e analisou possíveis candidatos localizados a até 15 parsecs da Terra, distância equivalente a aproximadamente 49 anos-luz.
Os pesquisadores identificaram cinco fontes que mereciam investigação, mas não encontraram evidências suficientes para classificá-las como buracos negros.
Embora o resultado não tenha confirmado novos objetos, a pesquisa ajuda a compreender por que esses remanescentes estelares são tão difíceis de localizar e quais métodos poderão ser mais eficientes nas próximas buscas.
Buracos negros de massa estelar podem se formar quando o núcleo de determinadas estrelas massivas sofre um colapso gravitacional ao final de sua evolução.
Dependendo das características da estrela original, o colapso pode produzir um objeto tão compacto que nem mesmo a luz consegue escapar de seu horizonte de eventos.
Esses buracos negros possuem massas geralmente equivalentes a algumas ou dezenas de vezes a massa do Sol.
Eles são muito diferentes dos buracos negros supermassivos encontrados nos centros de grandes galáxias, que podem concentrar milhões ou bilhões de massas solares.
Entretanto, independentemente de seu tamanho, um buraco negro não precisa emitir radiação intensa.
Na verdade, a luminosidade frequentemente associada a esses objetos não é produzida diretamente pelo interior do buraco negro, mas pela matéria presente em suas proximidades.
Quando gás ou outros materiais se aproximam, podem formar estruturas de acreção nas quais a matéria se aquece e emite radiação.
Em sistemas binários, por exemplo, um buraco negro pode capturar material de uma estrela companheira.
Esse processo pode produzir emissões intensas, incluindo raios X, facilitando sua identificação.
Mas muitos buracos negros de massa estelar provavelmente não possuem companheiras próximas.
Nesses casos, a quantidade de matéria disponível para acreção pode ser extremamente pequena.
Consequentemente, esses objetos podem permanecer praticamente invisíveis aos instrumentos astronômicos.
Modelos teóricos indicam que a maioria dos buracos negros de massa estelar da Via Láctea pode estar nessa situação.
Isso significa que uma população enorme de objetos compactos provavelmente permanece desconhecida.
Os pesquisadores partiram da possibilidade de que alguns desses objetos estejam relativamente próximos da Terra.
Considerando as estimativas para a população galáctica de buracos negros, é plausível que existam alguns a menos de 15 parsecs do Sistema Solar.
Essa região corresponde a uma esfera com aproximadamente 49 anos-luz de raio.
Entretanto, mesmo um buraco negro localizado a essa distância poderia ser extremamente difícil de identificar.
A possibilidade de detectá-lo depende, entre outros fatores, da quantidade de matéria existente em seu ambiente.
O espaço entre as estrelas não é completamente vazio.
Ele contém gás, poeira e partículas distribuídos em diferentes regiões, com densidades e temperaturas variadas.
Parte desse material forma estruturas conhecidas como nuvens interestelares.
O Sistema Solar está localizado em uma região que contém algumas dessas nuvens, incluindo a Nuvem Interestelar Local.
Essas estruturas apresentam gás relativamente mais denso do que o encontrado em determinadas regiões quentes e rarefeitas do meio interestelar.
Se um buraco negro isolado atravessar uma dessas nuvens, poderá capturar pequenas quantidades de gás.
Esse processo é chamado de acreção.
À medida que a matéria se aproxima do buraco negro, parte de sua energia pode ser convertida em radiação eletromagnética.
Dependendo das condições, essa emissão poderá ser detectada por telescópios que observam diferentes faixas do espectro.
Os pesquisadores estimam que as nuvens interestelares locais ocupem aproximadamente 5% a 20% do volume investigado.
Portanto, apenas uma fração dos possíveis buracos negros próximos estaria em ambientes suficientemente favoráveis para produzir sinais detectáveis por acreção.
Fora dessas nuvens, a densidade do gás seria tão baixa que a luminosidade prevista ficaria abaixo da sensibilidade dos instrumentos atuais e de muitos observatórios planejados.
Isso representa uma dificuldade importante.
Mesmo que um buraco negro esteja relativamente próximo da Terra, ele poderá permanecer invisível se não houver matéria suficiente ao seu redor.
Para procurar possíveis candidatos, a equipe utilizou o terceiro grande conjunto de dados da missão Gaia, conhecido como Gaia DR3.
Lançado em 2013 pela Agência Espacial Europeia, o Gaia foi desenvolvido para medir com grande precisão as posições, distâncias e movimentos de estrelas e outros objetos celestes.
Essas informações permitem construir um mapa tridimensional da Via Láctea e investigar a dinâmica de diferentes populações estelares.
Embora o telescópio não tenha sido projetado especificamente para descobrir buracos negros isolados, seus dados podem revelar fontes com características incomuns.
Os pesquisadores analisaram 1.071 fontes catalogadas pelo Gaia dentro de um raio de 15 parsecs.
Entre elas, seis não apresentavam uma classificação clara nos catálogos utilizados.
Uma dessas fontes já havia sido identificada como candidata a anã marrom.
Anãs marrons são objetos que possuem massas superiores às dos maiores planetas, mas insuficientes para sustentar a fusão estável de hidrogênio característica das estrelas.
Como essa fonte pertence a um sistema binário conhecido, os pesquisadores descartaram sua classificação como buraco negro de massa estelar.
Restaram cinco candidatos para investigação.
Entretanto, todos apresentavam uma característica que exigia cautela.
Eles estavam localizados próximos ao plano da Via Láctea, região do céu onde a concentração aparente de estrelas é elevada.
Nessas áreas, a proximidade entre diferentes fontes luminosas pode dificultar as medições realizadas pelo Gaia.
Objetos de fundo não identificados ou sistemas binários não reconhecidos podem provocar erros nas soluções astrométricas.
Por isso, os pesquisadores consideraram provável que os cinco candidatos fossem resultado de limitações nas medições, e não buracos negros reais.
Ainda assim, essa interpretação precisava ser confrontada com outras observações.
Para investigar os candidatos, a equipe comparou suas posições com dados de diferentes levantamentos astronômicos.
Um deles foi o CatWISE, catálogo construído a partir de observações em infravermelho realizadas pela missão WISE, da NASA.
A radiação infravermelha permite estudar objetos e processos que podem não apresentar emissões facilmente detectáveis na luz visível.
Os pesquisadores também consultaram levantamentos realizados por radiotelescópios.
Entre eles estavam o RACS, produzido com o conjunto de antenas ASKAP, na Austrália, e o VLASS, realizado com o conjunto de radiotelescópios Very Large Array, nos Estados Unidos.
Esses instrumentos investigam emissões em ondas de rádio provenientes de diferentes objetos astronômicos.
A ideia era verificar se alguma das cinco fontes apresentava sinais compatíveis com a acreção de matéria por um buraco negro.
Para isso, os pesquisadores utilizaram modelos físicos que estimam a quantidade de radiação produzida quando um buraco negro captura gás do meio interestelar.
Esses modelos consideram diferentes condições de acreção e permitem prever emissões em várias regiões do espectro eletromagnético.
As previsões apresentam incertezas consideráveis, especialmente porque o comportamento do gás próximo a um buraco negro isolado pode variar de acordo com a densidade, a temperatura e a velocidade relativa do material.
Mesmo assim, os pesquisadores identificaram uma expectativa importante.
Se os candidatos fossem buracos negros capturando gás nas condições consideradas, deveriam produzir emissões infravermelhas detectáveis pelo CatWISE.
Entretanto, nenhuma fonte correspondente foi encontrada.
As buscas nos catálogos de rádio também não revelaram emissões associadas aos candidatos.
Essa ausência de sinais enfraqueceu a hipótese de que os objetos fossem buracos negros isolados em processo de acreção.
Os pesquisadores concluíram que as cinco fontes provavelmente não correspondem a esse tipo de objeto.
Entretanto, a natureza definitiva dos candidatos ainda depende de observações complementares.
Existe outra maneira de procurar buracos negros: observar seus efeitos gravitacionais.
Mesmo quando não emite radiação detectável, um buraco negro continua exercendo atração gravitacional sobre os objetos ao redor.
Se uma estrela passar suficientemente perto, sua trajetória poderá sofrer uma perturbação.
Em princípio, instrumentos capazes de medir movimentos estelares com extrema precisão poderiam identificar essas alterações.
Esse método é particularmente útil em sistemas binários, nos quais uma estrela visível orbita um objeto compacto que não emite luz.
Entretanto, a situação é diferente para buracos negros isolados nas proximidades do Sistema Solar.
A densidade de estrelas nessa região é relativamente baixa.
Isso reduz a probabilidade de que uma estrela passe suficientemente perto de um buraco negro isolado para apresentar uma alteração gravitacional mensurável durante o período das observações.
Segundo os pesquisadores, embora esse método seja fisicamente possível, sua aplicação prática para encontrar buracos negros isolados nessa região é pouco promissora.
Isso não significa que a gravidade desses objetos seja fraca.
O problema está na baixa probabilidade de ocorrer uma configuração favorável à detecção.
Apesar de não encontrar candidatos convincentes, a pesquisa aponta caminhos para investigações futuras.
Um dos principais desafios é que buracos negros isolados podem apresentar emissões extremamente fracas e sem características espectrais facilmente reconhecíveis.
Isso dificulta sua identificação utilizando apenas um instrumento ou uma faixa do espectro eletromagnético.
Por esse motivo, os pesquisadores defendem a combinação de observações em rádio, luz visível e raios X.
A comparação entre diferentes comprimentos de onda poderá ajudar a distinguir possíveis buracos negros de outros objetos pouco luminosos.
O estudo também destaca a importância de procurar sinais de acreção em regiões onde o gás interestelar apresenta condições favoráveis.
Entre os instrumentos que poderão contribuir para essas buscas está o Square Kilometre Array, conhecido como SKA.
O projeto reúne grandes conjuntos de antenas na Austrália e na África do Sul, desenvolvidos para investigar o Universo por meio de ondas de rádio.
Sua elevada sensibilidade poderá permitir a identificação de fontes muito fracas, incluindo possíveis sinais produzidos pela acreção de matéria em buracos negros isolados.
Os pesquisadores apontam que novos dados previstos para 2027 poderão oferecer oportunidades importantes para esse tipo de investigação.
Entretanto, ainda não é possível garantir que esses levantamentos encontrarão buracos negros próximos ao Sistema Solar.
O sucesso dependerá tanto da sensibilidade dos instrumentos quanto das características físicas dos objetos e dos ambientes em que estiverem localizados.
A pesquisa também poderá ser beneficiada por novas versões dos catálogos do Gaia, que deverão aprimorar a precisão das medições e ajudar a identificar fontes classificadas incorretamente.
A possibilidade de existirem centenas de milhões de buracos negros de massa estelar na Via Láctea mostra que o conhecimento atual sobre esses objetos ainda é bastante incompleto.
Grande parte das descobertas realizadas até agora depende de situações favoráveis, como a presença de estrelas companheiras, emissões produzidas pela acreção ou eventos de ondas gravitacionais.
Entretanto, essas condições não representam necessariamente a maioria dos buracos negros existentes.
Os objetos isolados podem constituir uma população muito maior e mais difícil de observar.
Identificá-los permitiria testar modelos sobre a evolução de estrelas massivas, a formação de buracos negros e sua distribuição pela galáxia.
Também ajudaria a compreender como esses remanescentes interagem com o gás interestelar ao longo de bilhões de anos.
No caso da busca realizada com o Gaia, os cinco candidatos analisados não apresentaram as características esperadas para buracos negros isolados em processo de acreção.
Mas o resultado estabelece limites importantes para as estratégias utilizadas e reforça a necessidade de observações em diferentes comprimentos de onda.
Com novos levantamentos de rádio e raios X, os astrônomos poderão investigar regiões e objetos que permanecem fora do alcance das buscas atuais.
Se algum desses buracos negros estiver relativamente próximo e atravessando uma nuvem interestelar suficientemente densa, sua presença poderá ser revelada pela pequena quantidade de radiação produzida durante a captura de gás.
Até lá, a possibilidade de existirem buracos negros desconhecidos nas proximidades do Sistema Solar continuará sendo uma previsão científica plausível, mas ainda não confirmada por essa pesquisa.
Sobre a Imagem: Esta ilustração mostra a Nuvem Interestelar Local (LIC), o sistema solar se movendo através dela e algumas estrelas próximas bem conhecidas. Também mostra a Nuvem G, outra nuvem interestelar próxima. Se houver buracos negros de massa estelar nas nuvens interestelares a menos de 50 anos-luz do Sol, eles deveriam ser detectáveis por suas emissões eletromagnéticas.
Créditos da Imagem: NASA / Adler / Universidade de Chicago / Wesleyan
Artigo Científico: https://iopscience.iop.org/article/10.3847/1538-4357/ae6805