
A Agência de Exploração Aeroespacial do Japão (JAXA) lançou com sucesso a missão Martian Moons eXploration (MMX), que pretende coletar amostras de Fobos, a maior lua de Marte, e trazê-las à Terra.
O lançamento aconteceu às 16h41min03s de segunda-feira, 19 de outubro, no horário de Brasília, quando já eram 4h41min03s de terça-feira, 20 de outubro, no Japão.
A espaçonave partiu do Centro Espacial de Tanegashima, no sul do Japão, a bordo do décimo foguete H3.
Segundo a confirmação oficial da JAXA, o foguete realizou seu voo conforme o planejado e liberou a espaçonave aproximadamente uma hora e onze minutos após a decolagem, colocando-a na trajetória prevista.
O sucesso da operação marca o início de uma missão interplanetária que deverá durar aproximadamente cinco anos e envolver algumas das manobras mais complexas já realizadas pelo programa espacial japonês.
A MMX deverá chegar ao sistema de Marte em agosto de 2027. Seu principal objetivo será investigar Fobos e Deimos, os dois pequenos satélites naturais do planeta vermelho, para compreender como eles se formaram.
A origem dessas luas permanece entre as questões em aberto da ciência planetária.
Uma das hipóteses é que Fobos e Deimos sejam antigos asteroides capturados pela gravidade de Marte. Outra possibilidade é que tenham surgido a partir de detritos lançados ao espaço após um grande impacto contra o planeta.
A análise de materiais coletados diretamente em Fobos poderá ajudar a distinguir essas explicações, revelando informações sobre a composição química e mineralógica da lua.
A MMX também observará Deimos durante sua permanência no sistema marciano.
A missão reúne a experiência da JAXA em retorno de amostras, adquirida com as espaçonaves Hayabusa e Hayabusa2, responsáveis por trazer à Terra materiais dos asteroides Itokawa e Ryugu.
Entretanto, a operação em Fobos apresenta desafios diferentes.
O satélite natural possui formato irregular, aproximadamente 22 quilômetros de extensão e gravidade extremamente baixa.
Isso significa que tanto a aproximação quanto o contato com sua superfície precisarão ser realizados com grande precisão.
Antes da tentativa de coleta, a MMX realizará observações detalhadas de Fobos para identificar regiões adequadas para o pouso.
A missão também transporta um pequeno veículo explorador chamado IDEFIX, desenvolvido pelas agências espaciais francesa e alemã, CNES e DLR, em colaboração com a JAXA.
O veículo possui quatro rodas e foi projetado para operar em um ambiente de gravidade muito reduzida.
Após ser liberado próximo à superfície, deverá realizar observações do terreno e investigar propriedades físicas e químicas do solo.
Essas informações serão importantes para avaliar as condições encontradas em Fobos e apoiar a seleção de áreas adequadas para a descida da espaçonave principal.
Uma das preocupações dos pesquisadores é a natureza do material superficial.
Como Fobos possui uma camada de partículas soltas e sua gravidade é muito fraca, o comportamento do solo durante o contato com um veículo ainda apresenta incertezas.
O IDEFIX foi projetado para conseguir se posicionar corretamente mesmo que chegue à superfície em uma orientação desfavorável.
Depois disso, deverá se deslocar lentamente, evitando movimentos capazes de comprometer sua estabilidade.
A etapa mais importante da missão será a coleta de amostras.
A JAXA pretende obter pelo menos 10 gramas de material da superfície de Fobos, utilizando mecanismos capazes de retirar partículas soltas e material de uma pequena profundidade.
A espaçonave poderá realizar mais de uma operação de coleta, permitindo comparar materiais de diferentes regiões.
Após concluir essa etapa, o material será armazenado em uma cápsula de retorno.
A missão deverá deixar o sistema marciano em 2030 e trazer as amostras à Terra em 2031.
A cápsula será liberada durante a aproximação do nosso planeta e deverá pousar na Austrália, onde será recuperada para que o material seja encaminhado aos laboratórios.
Se a operação for bem-sucedida, será a primeira vez que amostras coletadas diretamente de uma lua de Marte chegarão à Terra.
Além de investigar a origem de Fobos, os cientistas consideram a possibilidade de encontrar fragmentos provenientes do próprio planeta vermelho.
Impactos de asteroides contra Marte podem lançar rochas ao espaço. Parte desses materiais pode alcançar Fobos e permanecer acumulada em sua superfície.
Isso significa que as amostras coletadas pela MMX poderão conter registros de processos geológicos ocorridos em Marte.
Entretanto, essa possibilidade ainda precisa ser confirmada. A missão não realizará uma coleta direta de rochas na superfície marciana.
A MMX também representa uma nova tentativa de alcançar um objetivo que outras missões não conseguiram cumprir.
Em 2011, a Rússia lançou a espaçonave Phobos-Grunt, que deveria pousar em Fobos e retornar amostras à Terra.
Entretanto, uma falha impediu que a espaçonave deixasse a órbita terrestre, e a missão terminou sem alcançar Marte.
Agora, o Japão pretende utilizar tecnologias desenvolvidas para a exploração de pequenos corpos do Sistema Solar em uma operação ainda mais distante e complexa.
O projeto conta com a colaboração de diferentes agências espaciais, incluindo NASA, Agência Espacial Europeia, CNES e DLR.
Entre as contribuições internacionais estão instrumentos científicos, tecnologias de exploração e participação na análise dos materiais que poderão ser recuperados.
O lançamento também representa um marco para o foguete H3, desenvolvido para se tornar um dos principais veículos de lançamento do programa espacial japonês.
Depois de uma estreia malsucedida em 2023, o foguete passou por novas campanhas de voo e agora realizou sua primeira missão interplanetária.
Com a MMX separada do estágio superior e colocada na trajetória planejada, a missão entra em sua fase de viagem até Marte.
Os próximos meses serão dedicados à operação da espaçonave e às atividades necessárias para garantir sua chegada ao sistema marciano.
A etapa científica mais aguardada ainda está por vir.
Se conseguir pousar em Fobos, coletar material e retornar à Terra, a MMX poderá fornecer evidências fundamentais para esclarecer a origem das duas luas de Marte.
A missão também deverá ampliar o conhecimento sobre a evolução do planeta vermelho e sobre os processos que moldaram os pequenos corpos do Sistema Solar.
Sobre a Imagem: Um foguete H3 decola do Centro Espacial de Tanegashima, na província de Kagoshima, sul do Japão, na terça-feira, 20 de outubro de 2026.
Créditos da Imagem: Naoki Hiraoka/Kyodo News via AP.
Artigo: https://phys.org/news/2026-10-japan-spacecraft-mysterious-moons-mars.html