
O Japão está prestes a iniciar uma das missões mais ambiciosas de sua história na exploração espacial. Nesta segunda-feira, 19 de outubro de 2026, a Agência de Exploração Aeroespacial do Japão (JAXA) pretende lançar a missão MMX, sigla de Martian Moons eXploration, com destino às duas luas de Marte.
O lançamento está previsto para as 16h41min03s, no horário de Brasília, a bordo de um foguete H3, a partir do Centro Espacial de Tanegashima, no Japão.
A missão terá duração aproximada de cinco anos e pretende realizar uma operação inédita: pousar em Fobos, coletar amostras de sua superfície e trazê-las à Terra para análises laboratoriais.
Embora o destino seja o sistema de Marte, a espaçonave não pousará no planeta vermelho. Seu principal alvo será Fobos, o maior dos dois satélites naturais marcianos.
O objetivo central é responder a uma questão que permanece em aberto há décadas: como Marte adquiriu suas duas pequenas luas?
Fobos e Deimos possuem características muito diferentes das encontradas em satélites naturais maiores, como a nossa Lua.
Ambos são pequenos, apresentam formas irregulares e possuem superfícies marcadas por crateras de impacto.
Fobos tem aproximadamente 22 quilômetros em sua maior dimensão média característica, enquanto Deimos é ainda menor, com cerca de 12 quilômetros.
Durante muito tempo, a aparência desses objetos levou os pesquisadores a considerar que poderiam ser asteroides capturados pela gravidade de Marte.
Essa hipótese sugere que os dois corpos teriam se formado em outra região do Sistema Solar e posteriormente passado perto o suficiente do planeta para permanecerem gravitacionalmente ligados a ele.
Entretanto, explicar a captura e a evolução de suas órbitas não é simples.
Outra possibilidade é que Fobos e Deimos tenham se formado a partir de material lançado ao espaço depois de um grande impacto contra Marte.
Nesse cenário, a colisão teria produzido um disco de detritos ao redor do planeta. Parte desse material poderia ter se agrupado gradualmente, dando origem aos satélites naturais.
As duas hipóteses fazem previsões diferentes sobre a composição e a história dos materiais presentes nas luas.
Se Fobos for um antigo asteroide capturado, suas rochas poderão apresentar características semelhantes às de determinados grupos de asteroides.
Se tiver se formado a partir de detritos de um impacto, sua composição poderá preservar uma mistura de materiais associados a Marte e ao corpo que o atingiu.
É justamente essa diferença que a missão MMX pretende investigar.
A espaçonave levará instrumentos capazes de estudar a superfície, a composição mineralógica, a estrutura e o ambiente espacial de Fobos.
Entre eles estão as câmeras TENGOO e OROCHI, que produzirão imagens detalhadas da lua.
Um altímetro a laser medirá distâncias entre a espaçonave e a superfície, ajudando a reconstruir a topografia e identificar áreas adequadas para o pouso.
O espectrômetro infravermelho MIRS investigará a composição mineralógica dos materiais superficiais.
A missão também contará com o instrumento MEGANE, desenvolvido com participação da NASA, que utilizará medições de raios gama e nêutrons para determinar a abundância de elementos químicos presentes na superfície de Fobos.
Essas informações serão importantes para comparar as características da lua com as de asteroides e materiais conhecidos de Marte.
A MMX também observará Deimos, permitindo que os pesquisadores investiguem semelhanças e diferenças entre os dois satélites naturais.
Após o lançamento, a espaçonave deverá viajar por aproximadamente um ano até alcançar o sistema marciano.
A chegada a Marte está prevista para agosto de 2027, seguida pelo início das operações próximas a Fobos em setembro.
Durante os anos seguintes, a missão realizará observações detalhadas para compreender as características da superfície e selecionar os locais mais adequados para a coleta de amostras.
Uma das etapas mais importantes será a implantação de um pequeno veículo explorador chamado IDEFIX.
Desenvolvido pelas agências espaciais francesa e alemã, CNES e DLR, em colaboração com a JAXA, o veículo deverá ser liberado próximo à superfície de Fobos no início de 2029.
O explorador terá dimensões aproximadas às de um forno de micro-ondas e utilizará instrumentos científicos para investigar diretamente o solo da lua.
Seu objetivo será estudar as propriedades físicas e a composição do terreno, além de fornecer informações úteis para o planejamento do pouso da espaçonave principal.
A operação apresenta desafios consideráveis devido à gravidade extremamente baixa de Fobos.
Como o satélite natural possui pouca massa, sua atração gravitacional é muito menor que a terrestre.
Isso significa que uma espaçonave não pode realizar um pouso convencional, como aconteceria em Marte.
Uma aproximação rápida demais poderia provocar um impacto, enquanto movimentos inadequados durante o contato com a superfície poderiam fazer o veículo se afastar novamente.
Por esse motivo, os sistemas de navegação, descida e coleta precisam funcionar com grande precisão.
A JAXA pretende utilizar a experiência adquirida com as missões Hayabusa e Hayabusa2, que coletaram amostras de asteroides e as trouxeram à Terra.
A Hayabusa retornou material do asteroide Itokawa em 2010, enquanto a Hayabusa2 trouxe amostras de Ryugu em 2020.
Entretanto, Fobos apresenta desafios diferentes, incluindo sua proximidade com Marte e a necessidade de operar durante um período prolongado no ambiente marciano.
A etapa de coleta está prevista para 2030.
A espaçonave principal deverá descer até a superfície de Fobos e utilizar sistemas específicos para obter material do solo.
A missão contará com dois métodos de amostragem.
Um deles utiliza um mecanismo capaz de retirar material de uma pequena profundidade abaixo da superfície.
O outro emprega gás pressurizado para deslocar partículas soltas e direcioná-las para um compartimento de coleta.
A intenção é obter pelo menos 10 gramas de material, possivelmente em duas operações realizadas em locais diferentes.
Coletar amostras em mais de uma região poderá ajudar os pesquisadores a verificar se a composição de Fobos é relativamente uniforme ou se existem diferenças importantes entre suas áreas superficiais.
Após a conclusão dessa etapa, o material será armazenado em uma cápsula de retorno.
A espaçonave deverá deixar o sistema de Marte em 2030 e iniciar a viagem de volta à Terra.
A chegada está prevista para 2031.
Durante a aproximação do nosso planeta, a cápsula contendo as amostras será liberada para atravessar a atmosfera e realizar uma descida controlada.
O pouso deverá ocorrer na Austrália, onde o material será recuperado e posteriormente encaminhado ao Japão.
As amostras poderão então ser analisadas em laboratórios especializados, utilizando instrumentos muito mais sensíveis e complexos do que aqueles que podem ser transportados em uma espaçonave.
Essas análises permitirão investigar a composição química, mineralógica e isotópica dos materiais de Fobos.
Os pesquisadores também poderão procurar informações sobre a idade das rochas e os processos que modificaram sua superfície ao longo do tempo.
A missão apresenta ainda uma possibilidade científica adicional.
Como Fobos orbita muito próximo de Marte, parte do material encontrado em sua superfície pode ter se originado no próprio planeta vermelho.
Impactos de asteroides contra Marte podem lançar fragmentos de rochas a grandes altitudes e, em determinadas circunstâncias, parte desses detritos pode alcançar Fobos.
Se fragmentos marcianos estiverem presentes nas amostras coletadas, os cientistas poderão obter informações adicionais sobre a história geológica de Marte.
Entretanto, essa possibilidade ainda depende da composição real do material que será recuperado.
A MMX não substituirá uma missão de retorno de amostras coletadas diretamente na superfície marciana.
O material de Fobos poderá conter fragmentos de Marte, mas não existe garantia de que eles estejam presentes na quantidade necessária para análises detalhadas.
Mesmo assim, a missão poderá fornecer informações inéditas sobre a evolução do sistema marciano.
Além dos objetivos científicos, a MMX também permitirá testar tecnologias importantes para futuras missões interplanetárias.
Entre elas estão a navegação próxima a pequenos corpos, o pouso em ambientes de gravidade extremamente baixa, a coleta automatizada de materiais e o retorno de amostras após uma viagem interplanetária.
A operação também deverá contribuir para o desenvolvimento de sistemas de comunicação e controle de espaçonaves em grandes distâncias.
A missão é liderada pela JAXA e conta com colaboração internacional da NASA, da Agência Espacial Europeia e das agências espaciais francesa e alemã.
O projeto reúne conhecimentos desenvolvidos ao longo de décadas de exploração de asteroides, Marte e outros corpos do Sistema Solar.
A tentativa de coletar amostras de Fobos também representa uma nova etapa após o fracasso da missão russa Phobos-Grunt, lançada em 2011.
A espaçonave russa deveria viajar até Fobos e trazer material de sua superfície, mas não conseguiu deixar a órbita terrestre e acabou reentrando na atmosfera em janeiro de 2012.
Agora, a JAXA pretende realizar a primeira missão bem-sucedida de retorno de amostras de uma lua de Marte.
Se alcançar seus objetivos, a MMX poderá ajudar a determinar se Fobos e Deimos são antigos asteroides capturados ou se nasceram de um grande impacto ocorrido no passado marciano.
A resposta terá implicações que vão além das duas pequenas luas.
Compreender sua origem poderá revelar como Marte evoluiu, como os impactos modificaram o Sistema Solar e de que maneira pequenos corpos podem preservar registros de processos ocorridos há bilhões de anos.
O lançamento desta segunda-feira marca o início de uma viagem que poderá trazer à Terra, em 2031, materiais capazes de esclarecer uma das questões mais antigas da ciência planetária.
Sobre a Imagem: A espaçonave MMX entrará na órbita de Marte antes de tentar coletar amostras de Fobos.
Créditos da Imagem: Jaxa.
Artigo Científico: https://www.jaxa.jp/press/2026/10/20261018-1_j.html?utm_source