
Depois de 14 anos explorando Marte, o rover Curiosity está se aproximando de uma região que intriga os cientistas da missão há muito tempo.
Uma nova imagem divulgada pela NASA mostra, com o maior nível de detalhe obtido até agora a partir da superfície, uma série de formações rochosas distantes conhecidas como yardangs, estruturas esculpidas pela erosão do vento que se estendem por cerca de 16 quilômetros na região noroeste do Monte Sharp.
O panorama foi divulgado pelo Laboratório de Propulsão a Jato da NASA em 6 de outubro, mas as imagens foram registradas pelo Curiosity em 11 de agosto de 2026, durante o sol 4.982 da missão.
Naquele momento, eram aproximadamente 8h30 da manhã no horário local de Marte.
A posição do Sol produziu uma iluminação que destaca os relevos distantes, enquanto o terreno mais próximo do rover apresenta uma tonalidade azulada pouco comum nas imagens divulgadas do planeta.
Isso não significa que o Curiosity tenha encontrado um solo azul em Marte.
O panorama foi produzido a partir de seis imagens da Mastcam e, desta vez, a equipe optou por não aplicar o balanço de branco normalmente utilizado no processamento das fotografias do rover. A escolha preserva melhor a aparência cromática da cena sob aquela iluminação marciana do início da manhã.
O verdadeiro alvo científico, porém, está no horizonte.
Os yardangs são relevos alongados esculpidos principalmente pela ação persistente do vento sobre materiais que apresentam diferentes resistências à erosão.
Na região para onde o Curiosity está seguindo, eles formam uma extensa camada no Monte Sharp, a montanha de aproximadamente 5 quilômetros de altura localizada no interior da cratera Gale.
E existe algo estranho nessa camada.
Segundo Ashwin Vasavada, cientista do projeto Curiosity no JPL, ela parece deslocada em relação às unidades geológicas que o rover vem atravessando. Sua coloração é diferente e suas camadas apresentam inclinações incomuns.
Nas palavras de Vasavada, ela quase parece ter sido “colada” sobre o restante da montanha.
É justamente essa diferença que interessa aos geólogos.
O Monte Sharp funciona como um enorme registro da evolução ambiental da cratera Gale. Suas diferentes camadas foram depositadas em períodos distintos da história marciana e, desde que começou a subir a montanha em 2014, o Curiosity vem analisando essa sequência geológica.
As regiões inferiores preservam evidências de ambientes que, bilhões de anos atrás, tiveram lagos e cursos d’água.
Com o passar do tempo, Marte se tornou progressivamente mais seco. Mudanças nas condições ambientais deixaram diferentes minerais registrados nas rochas, incluindo sulfatos e carbonatos.
A história, porém, não foi formada apenas pela deposição de novos materiais.
Existem períodos em que camadas anteriores foram removidas pela erosão antes que outras fossem depositadas por cima. O Curiosity passou recentemente por uma região que a equipe interpreta como uma possível grande superfície erosiva, ou seja, uma interrupção no registro das rochas causada por um período em que a remoção de material predominou sobre a deposição.
Agora, conforme continua subindo o Monte Sharp, o rover se aproxima da unidade dos yardangs.
E os cientistas ainda não sabem exatamente de onde veio o material que forma essa camada.
Uma possibilidade mencionada pela própria equipe é particularmente interessante: parte dela pode ter sido formada por cinzas depositadas durante antigas erupções vulcânicas.
Isso ainda não foi demonstrado.
As imagens obtidas à distância não são suficientes para determinar a composição e a origem das rochas. A hipótese vulcânica é uma das explicações que poderão ser testadas quando o rover finalmente chegar à região e conseguir examinar o material de perto.
Esse é um dos motivos pelos quais a aproximação é tão aguardada.
O Curiosity possui instrumentos capazes de analisar a química e a mineralogia das rochas, além de uma câmera microscópica em seu braço robótico que permite estudar suas texturas em escalas muito menores do que as imagens obtidas à distância.
A expectativa da equipe é alcançar a base dos yardangs em algum momento de 2027. Quando isso acontecer, o rover poderá usar seu braço robótico para realizar as primeiras análises locais dessa unidade misteriosa.
Até chegar lá, ainda há bastante terreno pela frente.
O Curiosity está no segundo ano de sua quinta missão estendida e deve passar grande parte do próximo ano atravessando camadas enriquecidas em sulfatos e carbonatos, minerais importantes para reconstruir a transição de ambientes mais úmidos para condições progressivamente mais secas na cratera Gale.
A aproximação dos yardangs acontece também pouco depois de outro marco importante da missão.
Em 26 de agosto de 2026, o Curiosity ultrapassou 1 quilômetro de ganho de elevação em relação ao local onde pousou, no piso da cratera Gale.
Isso não significa que o rover esteja atualmente a 1 quilômetro de altitude em relação a um nível de referência de Marte. O número representa quanto ele subiu verticalmente desde o ponto inicial de sua jornada enquanto avançava pelas encostas do Monte Sharp.
Nenhum outro rover percorreu uma diferença de elevação tão grande na superfície marciana.
A comparação ajuda a colocar essa escalada em perspectiva. O rover Spirit, por exemplo, ganhou aproximadamente 106 metros de elevação ao subir o Husband Hill, na cratera Gusev. O Curiosity já ultrapassou mil metros em relação ao seu local de pouso.
E a jornada continua.
O panorama divulgado agora é, portanto, mais do que uma bela fotografia de uma manhã marciana.
Ao fundo da imagem está uma das próximas grandes etapas científicas de uma missão que começou em 2012.
Por enquanto, os yardangs ainda são estruturas distantes no horizonte. Sabemos que o vento esculpiu suas formas atuais, mas isso não responde à questão mais importante: de que material essa camada foi originalmente formada e por que ela é tão diferente das rochas abaixo dela?
A resposta pode estar esperando alguns quilômetros à frente do Curiosity.
Se tudo correr como planejado, em 2027 aquilo que hoje aparece apenas como uma série de penhascos iluminados no horizonte estará ao alcance dos instrumentos do rover.
E então será possível descobrir se essa estranha camada preserva evidências de vulcanismo antigo ou se Marte reservou mais uma explicação para sua complexa história geológica.
Sobre a Imagem: Nesta imagem ampliada de um panorama mais amplo capturado pelo rover Curiosity da NASA em Marte, em 11 de agosto de 2026, são reveladas as formas fascinantes de penhascos esculpidos pelo vento, chamados yardangs. Os cientistas estão ansiosos para aprender mais sobre como a camada de yardangs se formou.
Créditos da Imagem: NASA/JPL-Caltech/MSSS.