
A Crew-13 chegou à Estação Espacial Internacional depois de completar a viagem mais rápida já realizada por uma espaçonave norte-americana até o laboratório orbital.
A Dragon Grace, da SpaceX, acoplou automaticamente ao porto frontal do módulo Harmony às 20h05 de quinta-feira, 1º de outubro, no horário de Brasília, levando os astronautas Jessica Watkins e Luke Delaney, da NASA, Joshua Kutryk, da Agência Espacial Canadense, e Sergey Teteryatnikov, da Roscosmos.
Apenas 7 horas e 55 minutos separaram a decolagem em Cabo Canaveral da chegada à estação.
O Falcon 9 havia partido às 12h10 de Brasília do Complexo de Lançamento Espacial 40, na Estação da Força Espacial de Cabo Canaveral, na Flórida. Pouco menos de oito horas depois, a Dragon alcançou a ISS e estabeleceu um novo recorde norte-americano de tempo entre lançamento e acoplagem.
A marca supera com ampla margem os recordes anteriores dos Estados Unidos. A viagem mais rápida de uma espaçonave norte-americana até então havia sido realizada pela Dragon de carga da missão CRS-31, que chegou à estação em 12 horas e 33 minutos em novembro de 2024. Considerando apenas missões tripuladas norte-americanas, o recorde anterior pertencia à Crew-11, que completou o trajeto em 14 horas e 43 minutos em agosto de 2025.
Isso não significa, entretanto, que a Crew-13 tenha realizado a viagem mais rápida de toda a história da ISS. Naves russas Soyuz já utilizaram trajetórias ainda mais curtas. Em 2020, por exemplo, uma Soyuz levou apenas 3 horas e 3 minutos entre o lançamento no Cosmódromo de Baikonur e a chegada à estação.
O recorde da Crew-13 é, portanto, norte-americano.
Uma viagem mais curta até a ISS não significa simplesmente que a Dragon tenha voado mais rápido.
A estação orbita a Terra a aproximadamente 28.200 quilômetros por hora, a algumas centenas de quilômetros de altitude. Para encontrá-la, uma nave precisa ser lançada no momento adequado e realizar uma série de manobras para ajustar progressivamente sua órbita à da estação. No momento da decolagem da Crew-13, a ISS estava a aproximadamente 423 quilômetros de altitude e passou sobre a região do Centro Espacial Kennedy cerca de 1 minuto e 37 segundos depois do lançamento.
Desta vez, a posição da estação no momento da partida ofereceu uma geometria particularmente favorável para a perseguição orbital.
Julianna Scheiman, responsável pelos programas Dragon e de ciência da NASA na SpaceX, explicou após o lançamento que a estação estava em uma posição especialmente conveniente e que a mecânica orbital permitiu reduzir o tempo de encontro. Segundo ela, a trajetória realizada ficou próxima do menor tempo possível dentro desse perfil de missão.
Isso permitiu que uma missão que permanecerá aproximadamente seis meses no espaço começasse com menos de oito horas de viagem entre a Flórida e seu destino orbital.
O acoplamento ocorreu de maneira automática no porto frontal do módulo Harmony.
A chegada física da Dragon, porém, não significou que os quatro astronautas pudessem entrar imediatamente na estação. Depois do acoplamento, as equipes precisaram realizar os procedimentos de pressurização, equalização da pressão e verificação de possíveis vazamentos entre a cápsula e a ISS.
A escotilha foi finalmente aberta às 22h19 no horário de Brasília, pouco mais de duas horas depois do acoplamento.
Watkins, Delaney, Kutryk e Teteryatnikov então entraram no laboratório orbital e foram recebidos pelos integrantes da Expedição 75 que já estavam a bordo.
Com a chegada da Crew-13, as duas naves Dragon tripuladas permanecerão temporariamente acopladas à estação. A Crew-12, formada por Jessica Meir e Jack Hathaway, da NASA, Sophie Adenot, da Agência Espacial Europeia, e Andrey Fedyaev, da Roscosmos, deverá retornar à Terra depois do período de transferência de atividades entre as tripulações.
Jessica Watkins está realizando sua segunda viagem à Estação Espacial Internacional e comanda a Crew-13.
Geóloga e cientista planetária, ela estudou a superfície de Marte e integrou a equipe científica do rover Curiosity, da NASA, antes de sua primeira missão espacial. Em 2022, Watkins viajou para a ISS como integrante da Crew-4 e permaneceu 170 dias no espaço, participando das Expedições 67 e 68.
A Crew-13 acrescenta novos marcos à sua carreira. Watkins tornou-se a primeira astronauta da NASA a viajar duas vezes a bordo de uma Dragon da SpaceX e também a primeira mulher negra a comandar uma tripulação lançada à órbita.
Pouco depois de alcançar a órbita, ela agradeceu às equipes pelo voo e descreveu a experiência como uma viagem incrível.
Para os outros três integrantes da missão, a chegada à ISS representa a conclusão da primeira viagem de suas carreiras ao espaço.
Luke Delaney é engenheiro, ex-aviador naval, piloto de testes e trabalhou como piloto de pesquisa no Centro de Pesquisa Langley da NASA antes de ser selecionado para o corpo de astronautas em 2021.
Joshua Kutryk foi selecionado pela Agência Espacial Canadense em 2017. Coronel da Força Aérea Real Canadense, atuou como piloto de caça CF-18 e piloto de testes e acumulou experiência em dezenas de tipos de aeronaves antes de sua primeira missão espacial.
Sergey Teteryatnikov, da Roscosmos, é engenheiro naval e trabalhou em diferentes funções na Marinha russa, inclusive em embarcações submarinas, antes de ser selecionado para o corpo de cosmonautas.
A Crew-13 também decidiu assumir completamente o número de sua missão em vez de tratá-lo como sinal de azar.
A designação faz referência à posição da missão na sequência de rotações operacionais realizadas pela SpaceX para a NASA. A Crew-13 é a 13ª missão operacional de rotação de tripulação da empresa para a estação e o 14º voo de uma Dragon com pessoas dentro do Programa de Tripulação Comercial da NASA, quando também é incluída a missão de teste Demo-2, realizada em 2020.
Os astronautas aproveitaram a coincidência para homenagear a Apollo 13, missão lunar de 1970 que sofreu uma explosão durante a viagem à Lua. O pouso precisou ser cancelado e a missão transformou-se em uma operação de emergência para trazer Jim Lovell, Jack Swigert e Fred Haise de volta à Terra em segurança.
As referências ao número 13 continuaram no dia do lançamento. Os quatro astronautas viajaram até a plataforma em veículos com placas “Lucky 13”, ou “13 da sorte”, e levaram para a Dragon um pequeno dragão dourado de crochê chamado Lucky, com um trevo de quatro folhas no pescoço.
Lucky também desempenha uma função tradicional nas missões tripuladas: serve como indicador visual da chegada à microgravidade. Objetos pequenos e leves começam a flutuar livremente dentro da cápsula quando a nave entra em órbita.
A brincadeira com a sorte começou antes mesmo de os astronautas deixarem o prédio de preparação. Existe uma tradição herdada da época dos ônibus espaciais na qual a tripulação joga cartas antes de seguir para a plataforma até que o comandante perca uma partida, simbolicamente deixando a má sorte para trás. Na Crew-13, naturalmente, coube a Watkins perder.
O sucesso da viagem recorde veio depois de um problema técnico que atrasou a missão.
Durante o processamento da Dragon antes do lançamento, NASA e SpaceX detectaram um vazamento de oxidante no sistema de propulsão da cápsula. As equipes adiaram a missão para investigar o problema, realizar testes adicionais e executar os reparos necessários.
Posteriormente, uma válvula de oxidante foi substituída e a nave passou pelas verificações antes de receber autorização para voar.
No próprio dia do lançamento, as condições meteorológicas também exigiram atenção. Entre as principais preocupações estavam nuvens cúmulos, camadas espessas de nuvens e possibilidade de precipitação ao longo da trajetória inicial.
As condições, no entanto, permaneceram dentro dos limites necessários, e o Falcon 9 decolou no horário previsto.
A missão terá ainda um acontecimento pessoal incomum para Joshua Kutryk.
Sua esposa, Heather, espera o terceiro filho do casal para o final de novembro, quando ele já estará há quase dois meses vivendo na Estação Espacial Internacional. Kutryk deverá se tornar o quarto homem conhecido a se tornar pai enquanto estiver em órbita.
A Agência Espacial Canadense e a NASA deverão auxiliar a família nas comunicações durante esse período.
Existem precedentes. Em 2004, Mike Fincke estava na ISS quando sua filha nasceu e pôde acompanhar o momento por comunicação com a sala de parto. Randy Bresnik estava no espaço durante a missão STS-129 do ônibus espacial Atlantis, em 2009, quando sua filha nasceu.
O austríaco Franz Viehböck viveu situação semelhante em condições tecnológicas bastante diferentes. Sua filha nasceu poucas horas depois de seu lançamento para a estação espacial soviética Mir, em 1991, mas ele só recebeu a notícia no dia seguinte.
Para Kutryk, as circunstâncias serão diferentes. Os astronautas atuais conseguem manter contatos regulares e privados com suas famílias durante missões de longa duração, embora ele esteja fisicamente a centenas de quilômetros da Terra quando o terceiro filho nascer.
Com a entrada na estação, os quatro integrantes da Crew-13 passaram a fazer parte da Expedição 75 e iniciam agora uma missão científica de longa duração.
Entre os trabalhos programados estão pesquisas utilizando tecidos derivados de células-tronco humanas para estudar doenças e testar medicamentos, incluindo investigações relacionadas a problemas cardíacos e à doença de Parkinson. A tripulação também participará de experimentos com um novo sistema amplamente automatizado de cultivo de plantas e de estudos sobre alterações no fluxo sanguíneo provocadas pela permanência em microgravidade.
Outro experimento testará um novo dispositivo de diagnóstico médico durante o voo, parte dos esforços para aumentar a capacidade de acompanhar a saúde dos astronautas longe da Terra.
Essas pesquisas ganham importância à medida que NASA e seus parceiros se preparam para missões humanas cada vez mais longas e distantes, nas quais a tripulação terá menos possibilidade de depender de assistência imediata da Terra.
A Crew-13 permanecerá na estação por aproximadamente seis meses, mas os primeiros 7 horas e 55 minutos já garantiram à missão um lugar particular na história dos voos norte-americanos para a ISS.
A posição favorável da estação e o momento preciso do lançamento permitiram que a Dragon Grace reduzisse para menos de oito horas uma viagem que, em muitas missões anteriores, exigiu algo próximo de um dia.
O recorde não representa uma Dragon subitamente mais veloz, nem supera as trajetórias rápidas já realizadas pelas Soyuz russas. Ele demonstra principalmente como a geometria orbital e a sincronização precisa do lançamento podem encurtar drasticamente uma perseguição em órbita.
Às 12h10 de Brasília, os quatro astronautas ainda estavam na plataforma em Cabo Canaveral.
Às 20h05, a Dragon já estava fisicamente conectada à Estação Espacial Internacional.
E às 22h19, sua escotilha estava aberta e Watkins, Delaney, Kutryk e Teteryatnikov entravam no laboratório orbital que será sua casa durante os próximos meses.
Sobre a Imagem: A nave Dragon Grace, da SpaceX, aproxima-se da Estação Espacial Internacional em 1º de outubro de 2026, transportando os quatro integrantes da Crew-13. A cápsula acoplou ao módulo Harmony às 20h05 no horário de Brasília, 7 horas e 55 minutos depois do lançamento.
Créditos da Imagem: NASA.
Fonte: https://www.nasa.gov/blogs/spacestation/2026/10/01/dragon-docks-bringing-spacex-crew-13-to-station/