NASA mantém Starliner e prepara novo voo sem astronautas para testar correções

Dois anos depois do conturbado primeiro voo tripulado da Starliner, a NASA decidiu manter sua aposta na espaçonave da Boeing e apresentou um novo caminho para que a cápsula volte a transportar astronautas.

Mas antes que qualquer pessoa embarque novamente, a Starliner terá que provar que os problemas encontrados em 2024 foram suficientemente compreendidos e corrigidos.

A próxima missão, chamada Starliner-1, será realizada sem tripulação e poderá ser lançada em dezembro de 2026 ou janeiro de 2027.

A espaçonave viajará até a Estação Espacial Internacional levando carga, mas o voo também funcionará como uma importante avaliação de engenharia.

Somente depois da análise dos resultados e de novas modificações a NASA pretende autorizar o retorno de astronautas.

Pelo cronograma atual, isso não acontecerá antes de 2028.

A Starliner realizou seu primeiro voo tripulado em 5 de junho de 2024, levando os astronautas Butch Wilmore e Suni Williams até a Estação Espacial Internacional.

A missão deveria durar inicialmente entre oito e 14 dias.

Durante a aproximação e a acoplagem à estação, entretanto, a espaçonave enfrentou problemas em seu sistema de propulsão.

Cinco propulsores do sistema de controle de reação apresentaram falhas durante a viagem até a ISS, e vazamentos de hélio também foram detectados.

A permanência da cápsula em órbita foi estendida enquanto NASA e Boeing realizavam testes e tentavam entender o comportamento do sistema.

Depois de analisar os dados disponíveis e realizar testes em solo, a NASA concluiu que não havia confiança suficiente para trazer Wilmore e Williams de volta a bordo da Starliner.

A cápsula retornou sem tripulação em setembro de 2024.

Os dois astronautas permaneceram na estação e voltaram à Terra em março de 2025 a bordo de uma Crew Dragon, na missão Crew-9.

Os problemas levaram a uma investigação que ultrapassou as questões técnicas da espaçonave.

Em fevereiro de 2025, a NASA criou uma equipe independente para investigar fatores técnicos, organizacionais e culturais relacionados ao voo.

O relatório foi concluído em novembro daquele ano e divulgado pela NASA em fevereiro de 2026.

A investigação produziu 61 recomendações para a agência.

A NASA também tomou uma decisão incomum: classificou formalmente o Crew Flight Test como um acidente Tipo A.

Essa é a categoria mais grave utilizada pela agência para ocorrências desse tipo.

A classificação considerou, entre outros fatores, a perda da capacidade de manobra da espaçonave durante a aproximação da estação e os riscos associados ao evento.

Não houve feridos, e o controle da Starliner foi recuperado antes da acoplagem. Mesmo assim, a investigação concluiu que uma combinação de falhas de hardware, lacunas na qualificação dos sistemas e problemas de gestão criou condições de risco incompatíveis com os padrões de segurança para voos espaciais tripulados da NASA.

A investigação identificou um problema particularmente importante nos propulsores do módulo de serviço da Starliner.

Eles operaram fora das condições para as quais haviam sido qualificados.

Testes posteriores indicaram que os problemas de desempenho resultaram de uma combinação entre o ambiente térmico e características do próprio projeto.

Uma das questões envolve componentes móveis das válvulas dos propulsores, conhecidos como poppets.

Sob determinadas condições térmicas e mecânicas, esses componentes podem sofrer deformação e sair parcialmente da posição adequada, prejudicando o funcionamento dos propulsores.

A Boeing já realizou modificações térmicas no módulo de serviço.

E é justamente isso que a Starliner-1 ajudará a testar no espaço.

A missão sem tripulação não utilizará necessariamente todas as modificações que estarão presentes quando astronautas voltarem à Starliner.

Durante a Starliner-1, NASA e Boeing querem verificar se as mudanças realizadas realmente melhoram o ambiente térmico enfrentado pelo sistema de propulsão.

Depois desse voo, será concluída uma modificação no projeto das válvulas dos propulsores do módulo de serviço, destinada a enfrentar diretamente o problema de deformação dos poppets.

Outras mudanças também estão previstas.

A Boeing instalará novos propulsores no módulo da tripulação, novas baterias e fará pequenas modificações no sistema de paraquedas para aumentar seu desempenho e confiabilidade.

Isso explica por que existe um intervalo tão grande entre o próximo voo sem tripulação e o retorno de astronautas.

A Starliner-1 não será simplesmente uma demonstração final antes de colocar pessoas a bordo.

Os dados coletados durante a missão ainda serão utilizados para orientar parte das mudanças e da certificação necessárias para o voo tripulado.

A missão seguinte será a Starliner-2.

Pelo planejamento apresentado pela NASA, ela será a primeira a voltar a transportar astronautas e deverá ocorrer em 2028.

O astronauta Woody Hoburg foi anunciado como comandante.

A intenção da NASA é que, se todo o processo de certificação for concluído, a Starliner-2 já possa funcionar como uma missão regular de rotação de tripulação, em vez de simplesmente repetir um voo de teste.

Isso dependerá, entretanto, dos resultados da Starliner-1, das modificações posteriores e de todo o processo de certificação.

Portanto, 2028 é o planejamento atual, não uma garantia de que a cápsula estará pronta nessa data.

Existe uma razão estratégica para a agência continuar investindo na Starliner.

Desde o início do Programa de Tripulação Comercial, a NASA planejou possuir mais de um sistema norte-americano capaz de transportar astronautas até a órbita baixa da Terra.

A SpaceX conseguiu iniciar os voos operacionais da Crew Dragon em 2020.

A Boeing, entretanto, acumulou atrasos e problemas técnicos, deixando a NASA dependente de apenas um sistema operacional norte-americano para o transporte regular de suas tripulações.

A agência continua considerando essa redundância importante.

Ter duas espaçonaves independentes significa que um problema capaz de interromper os voos de uma delas não necessariamente interromperia o acesso norte-americano à órbita.

Foi justamente essa intenção de manter múltiplas opções de transporte que o administrador da NASA, Jared Isaacman, voltou a destacar ao anunciar o novo plano para a Starliner.

A NASA também anunciou outra mudança importante.

A agência pretende exercer opções contratuais para um quinto e um sexto voo da Starliner para a Estação Espacial Internacional.

Isso demonstra que o plano atual não é simplesmente realizar mais um teste antes de abandonar o programa.

A NASA pretende levar a espaçonave à certificação e utilizá-la operacionalmente.

Além disso, agência, Boeing e United Launch Alliance trabalharão na certificação do foguete Vulcan para transportar a Starliner depois do último voo do Atlas V.

O Atlas V está no fim de sua carreira, tornando necessária uma alternativa caso a Starliner continue operando por mais tempo.

Essa questão também ajuda a explicar por que a NASA olha além dos poucos anos restantes da ISS.

A agência pretende encerrar as operações da Estação Espacial Internacional em 2030 e realizar posteriormente sua retirada controlada de órbita.

Ao mesmo tempo, empresas privadas estão desenvolvendo futuras estações comerciais em órbita baixa.

A estratégia da NASA é deixar de operar sua própria estação nessa região e passar a comprar serviços de destinos comerciais, tornando-se um dos clientes dessas plataformas.

Isso significa que a necessidade de transportar astronautas e cargas para a órbita baixa não termina necessariamente com a ISS.

E a própria NASA afirma que pretende utilizar a Starliner tanto em apoio à estação atual quanto em futuros destinos comerciais.

O anúncio da NASA não significa que os problemas da Starliner foram resolvidos.

Na realidade, o novo cronograma deixa claro justamente o contrário.

A próxima missão será sem astronautas porque a agência ainda precisa verificar no ambiente real de voo se as mudanças realizadas produzem o resultado esperado.

Depois disso, componentes ainda serão modificados.

Só então virão novos testes, análises e a certificação necessária para colocar pessoas novamente a bordo.

A Starliner-1 poderá voar entre dezembro de 2026 e janeiro de 2027.

A Starliner-2 está planejada para 2028.

Entre uma e outra estará a parte mais importante do processo: demonstrar que os problemas que levaram a NASA a enviar a cápsula de volta vazia em 2024 não representam mais um risco inaceitável para sua tripulação.

Sobre a Imagem: Esta foto, fornecida pela NASA, mostra a espaçonave Starliner da Boeing acoplada à Estação Espacial Internacional em 3 de julho de 2024, vista de uma janela da espaçonave Dragon Endeavour da SpaceX, acoplada a uma porta adjacente.

Créditos da Imagem: NASA via AP, Arquivo.

Fonte: https://www.nasa.gov/news-release/nasa-boeing-share-update-on-commercial-starliner-development-plans/?utm_source=chatgpt.com

Descubra mais sobre Ned Oliveira

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo