
O rover Perseverance voltou a apontar suas câmeras para o céu de Marte e registrou Fobos passando diante do Sol. A sequência foi obtida pela Mastcam-Z em agosto de 2026 e mostra a silhueta irregular do maior dos dois satélites naturais marcianos atravessando rapidamente o disco solar.
À primeira vista, a observação pode parecer apenas mais uma imagem impressionante enviada da superfície de outro planeta. Mas existe uma razão científica para que a NASA continue repetindo essas observações depois de mais de duas décadas.
Cada passagem permite determinar com grande precisão a posição de Fobos em um determinado instante. Quando registros realizados ao longo dos anos são comparados, pequenas alterações em sua órbita podem ser medidas. E essas mudanças ajudam os pesquisadores a investigar não apenas o futuro de Fobos, mas também propriedades do interior de Marte. A NASA confirma que a sequência mais recente foi feita pela Mastcam-Z no sol 1.948 da missão e divulgada em agosto.
Fobos é muito pequeno para encobrir completamente o Sol quando observado da superfície marciana.
Com cerca de 27 quilômetros em sua maior dimensão e uma forma bastante irregular, ele produz uma passagem muito diferente dos eclipses solares totais proporcionados pela Lua na Terra.
A NASA costuma se referir a essas observações como eclipses solares de Fobos, embora, geometricamente, o fenômeno também seja descrito como um trânsito de Fobos pelo disco solar.
O evento também é rápido. Fobos orbita muito próximo de Marte e completa uma volta ao redor do planeta em aproximadamente 7 horas e 39 minutos. Por isso, sua silhueta atravessa rapidamente o Sol no céu marciano.
Para realizar essas observações, a Mastcam-Z dispõe de um filtro solar que reduz drasticamente a intensidade da luz, permitindo registrar detalhes tanto do contorno de Fobos quanto do próprio disco solar.
Observar Fobos atravessando o Sol não é novidade para as missões marcianas.
Spirit e Opportunity realizaram as primeiras observações desse tipo com rovers em 2004. Curiosity continuou o trabalho e, posteriormente, o Perseverance passou a produzir registros com a Mastcam-Z.
A continuidade é justamente uma das partes mais importantes do experimento.
Quanto maior o intervalo entre as medições, melhor os cientistas conseguem acompanhar pequenas alterações acumuladas na trajetória de Fobos.
O Perseverance também já observou outro alinhamento particularmente incomum. Em 2 de julho de 2026, registrou a Terra desaparecendo atrás de Fobos, primeira observação desse tipo realizada a partir da superfície de Marte. Na ocasião, nosso planeta estava a aproximadamente 314 milhões de quilômetros e aparecia como um pequeno ponto luminoso.
Fobos está lentamente se aproximando de Marte.
A interação gravitacional entre o satélite natural e o planeta produz forças de maré. Fobos exerce uma pequena atração sobre Marte, deformando sutilmente sua crosta e seu manto, enquanto essa interação também modifica a própria órbita do satélite.
É justamente aí que uma sequência aparentemente simples de imagens solares se transforma em uma ferramenta para estudar as profundezas do planeta.
Ao determinar como a órbita de Fobos muda com o tempo, os geofísicos podem investigar como o interior de Marte responde às forças de maré. Essa resposta depende das propriedades físicas dos materiais presentes na crosta e no manto.
É um experimento que se estende por décadas.
Registros iniciados pelos rovers Spirit e Opportunity podem ser comparados aos realizados posteriormente pelo Curiosity e agora pelo Perseverance. Quanto mais longa essa sequência, mais precisas se tornam as medições da evolução orbital de Fobos.
Há outra vantagem em observar Fobos durante um trânsito: a posição aparente do Sol pode ser determinada com enorme precisão.
Ao registrar exatamente onde a silhueta de Fobos aparece sobre o disco solar e acompanhar seu deslocamento, os pesquisadores obtêm uma referência extremamente precisa da posição do satélite natural naquele instante.
Esse tipo de informação melhora as efemérides de Fobos, ou seja, os cálculos utilizados para prever onde ele estará no futuro.
A precisão será particularmente importante para missões destinadas a estudar diretamente os satélites naturais marcianos.
Quando as câmeras marcianas são direcionadas para o Sol, outro objeto científico entra naturalmente no campo de visão: nossa própria estrela.
Manchas solares podem aparecer nas imagens.
Em 2024, o Perseverance registrou uma grande região de manchas antes que ela girasse para a face solar visível da Terra. Dias depois, essa região ativa esteve associada ao período de intensa atividade solar que produziu uma forte tempestade geomagnética e auroras observadas em latitudes incomuns.
Ter instrumentos em Marte oferece, portanto, uma perspectiva diferente daquela disponível na Terra e nas espaçonaves próximas ao nosso planeta.
O Perseverance já registrou diversas passagens de Fobos desde que chegou à cratera Jezero em fevereiro de 2021. A NASA destaca que a comparação entre essas observações permite refinar continuamente o conhecimento da órbita do satélite natural.
E isso ajuda a explicar por que os cientistas continuam solicitando que os rovers interrompam ocasionalmente suas observações do terreno e apontem as câmeras para cima.
Uma passagem de Fobos diante do Sol dura apenas alguns segundos, mas faz parte de um experimento iniciado há mais de 20 anos.
Ao acompanhar lentamente a mudança da órbita desse pequeno mundo, os cientistas conseguem usar Fobos como uma espécie de sonda natural do interior de Marte.
Sobre a Imagem: Fobos, o maior dos dois satélites naturais de Marte, aparece como uma silhueta irregular enquanto atravessa o disco solar em uma sequência registrada pela câmera Mastcam-Z do rover Perseverance. A imagem foi colorizada para simular a aparência que um observador teria utilizando proteção adequada para observar o Sol. Créditos da Imagem: NASA/JPL-Caltech/ASU/MSSS/SSI.
Fonte: https://www.universetoday.com/articles/martian-astronomy-percy-sees-a-phobos-eclipse-from-mars