Magnetar pode ter revelado comportamento quântico do vácuo previsto há 90 anos

Um astrônomo da Universidade Swinburne pode ter acabado de confirmar um dos aspectos mais peculiares da mecânica quântica: que o espaço aparentemente vazio pode alterar o comportamento da luz. Crédito: NASA.

Uma previsão da física quântica formulada há quase 90 anos pode ter encontrado no espaço o laboratório necessário para ser testada. Observações do magnetar 1E 1547.0−5408 revelaram sinais compatíveis com a chamada birrefringência do vácuo, efeito segundo o qual um campo magnético extremamente intenso pode modificar a maneira como a luz se propaga pelo espaço aparentemente vazio.

O resultado foi apresentado por uma equipe internacional liderada por Rachael E. Stewart e publicado na revista Nature. Os pesquisadores combinaram observações em raios X e ondas de rádio para investigar um ambiente magnético impossível de reproduzir atualmente em laboratórios terrestres.

A birrefringência do vácuo surge de uma consequência da eletrodinâmica quântica, teoria que descreve as interações entre luz e partículas eletricamente carregadas. A ideia remonta aos trabalhos de Werner Heisenberg e Hans Euler na década de 1930.

Mas chamar o vácuo de “vazio” pode ser enganoso quando entramos no domínio quântico.

Na física clássica, a luz que atravessa o vácuo não encontra um meio material que altere sua propagação. Na descrição quântica, porém, campos eletromagnéticos podem interagir por meio de flutuações quânticas associadas a partículas carregadas.

Normalmente, esse efeito é extremamente pequeno. A situação muda diante de campos magnéticos extraordinariamente intensos.

É justamente aí que entram os magnetars, estrelas de nêutrons que concentram campos magnéticos entre os mais poderosos conhecidos no Universo. Em condições tão extremas, a teoria prevê que diferentes orientações da polarização da luz não se comportem exatamente da mesma maneira.

Em outras palavras, o próprio vácuo passa a apresentar propriedades semelhantes às de um material birrefringente.

Esse fenômeno ainda não havia sido confirmado de maneira conclusiva porque seria necessário produzir campos magnéticos muito além daqueles disponíveis em laboratórios terrestres.

“Detectar a birrefringência do vácuo requer um campo magnético mais de 100 milhões de vezes mais forte do que qualquer um que já tenhamos criado na Terra”, explicou Marcus Lower, um dos pesquisadores envolvidos no estudo.

A natureza, porém, já produz condições desse tipo.

O objeto escolhido pela equipe foi 1E 1547.0−5408, um magnetar cuja orientação em relação à Terra acabou sendo especialmente favorável para esse experimento natural.

Observações em rádio realizadas com o radiotelescópio Murriyang, na Austrália, permitiram acompanhar como a polarização da emissão varia conforme a estrela de nêutrons gira.

A análise mostrou que o eixo de rotação e o eixo magnético do magnetar estão quase alinhados. Além disso, observamos o objeto de uma perspectiva próxima à direção de seu polo.

Determinar essa geometria foi essencial. Sem saber como o magnetar está orientado, seria muito mais difícil interpretar corretamente o padrão de polarização observado em raios X.

Os pesquisadores então combinaram essas informações com dados obtidos pelo IXPE, Explorador de Polarimetria de Raios X por Imagem da NASA, e pelo telescópio de raios X NICER, instalado na Estação Espacial Internacional.

O IXPE mede justamente uma propriedade fundamental para esse tipo de investigação: a polarização dos raios X, isto é, a orientação preferencial das oscilações do campo elétrico da radiação.

Os raios X provenientes de 1E 1547 apresentaram um grau de polarização extremamente elevado. Mais importante, a orientação dessa polarização acompanhava a geometria do campo magnético determinada independentemente pelas observações em rádio.

É essa combinação que torna o resultado particularmente interessante.

Segundo os pesquisadores, o padrão encontrado é compatível com o comportamento previsto caso a birrefringência do vácuo esteja atuando ao redor do magnetar.

Isso não significa, entretanto, que a questão esteja definitivamente encerrada.

Os próprios pesquisadores mantêm cautela na interpretação. Outros processos relacionados à superfície e à magnetosfera da estrela de nêutrons também podem influenciar a polarização observada.

Por isso, novos dados e modelos computacionais mais detalhados serão necessários para separar a contribuição da birrefringência do vácuo de possíveis efeitos astrofísicos concorrentes.

Se essa interpretação for confirmada, o resultado fornecerá um novo teste da eletrodinâmica quântica em um regime extremo, inacessível aos experimentos realizados atualmente na Terra.

Quase nove décadas depois das primeiras previsões teóricas, uma estrela de nêutrons com um campo magnético colossal pode estar permitindo observar como o próprio vácuo responde quando a natureza leva as leis da física a condições extremas.

Sobre a Imagem: Um astrônomo da Universidade Swinburne pode ter acabado de confirmar um dos aspectos mais peculiares da mecânica quântica: que o espaço aparentemente vazio pode alterar o comportamento da luz. Crédito da Imagem: NASA.

Link do Estudo: https://www.nature.com/articles/s41586-026-10859-z

Fonte: https://www.swinburne.edu.au/news/2026/08/rare-ultra-magnetic-star-the-key-to-solving-a-quantum-cold-case/

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