
Depois de mais de duas décadas observando algumas das explosões mais energéticas do Universo, o Observatório Neil Gehrels Swift, da NASA, está próximo do fim de sua missão. A tentativa de impedir sua queda foi cancelada depois que problemas técnicos atingiram justamente a espaçonave enviada para resgatá-lo.
A NASA e a Katalyst Space Technologies decidiram não prosseguir com a tentativa de capturar o Swift e elevá-lo para uma órbita mais alta. Sem essa intervenção, a altitude do observatório continuará diminuindo até sua reentrada na atmosfera terrestre, prevista para os próximos meses.
O desfecho encerra uma operação incomum. O Swift não foi projetado para receber manutenção em órbita, e a missão pretendia demonstrar que uma espaçonave comercial poderia se aproximar, capturar e reposicionar um satélite científico já em operação.
A própria NASA vinha tratando a iniciativa como uma corrida contra o tempo. O aumento da atividade solar acelerou a perda de altitude do Swift, e projeções da agência já apontavam para uma reentrada no segundo semestre de 2026.
A Katalyst recebeu da NASA um contrato de aproximadamente US$ 30 milhões para realizar a operação. Sua espaçonave Link foi desenvolvida para alcançar o observatório, capturá-lo com braços robóticos e elevar sua órbita.
O objetivo era levar o Swift novamente para uma altitude próxima de 600 quilômetros, prolongando sua permanência no espaço e abrindo a possibilidade de mais anos de observações científicas. Antes da tentativa, a NASA estabelecia como requisito alcançar pelo menos 550 quilômetros, com 600 quilômetros como objetivo.
A Link foi lançada em 3 de julho de 2026, a bordo de um foguete Pegasus XL.
Mas, algumas semanas depois, a espaçonave entrou em rotação descontrolada. Os controladores conseguiram diminuir esse movimento, porém continuaram enfrentando dificuldades para controlar com a precisão necessária sua orientação e posição.
Isso tornou arriscada a etapa mais delicada da missão: aproximar a Link do Swift e realizar a captura.
A decisão foi, portanto, abandonar a tentativa antes que as duas espaçonaves entrassem nessa fase.
“Este não é o resultado que esperávamos, mas isso não muda o motivo pelo qual valeu a pena tentar esta missão”, afirmou o administrador da NASA, Jared Isaacman, segundo o comunicado divulgado sobre o cancelamento.
O observatório foi lançado em 2004 e passou mais de 20 anos em órbita baixa da Terra. Nessa região ainda existem moléculas da atmosfera terrestre, extremamente dispersas, que produzem um pequeno arrasto sobre as espaçonaves.
Ao longo do tempo, esse efeito retira energia da órbita e provoca uma redução gradual da altitude.
O problema se intensifica durante períodos de maior atividade solar. A energia proveniente do Sol aquece e expande as camadas superiores da atmosfera, aumentando a densidade do gás encontrado pelos satélites em determinadas altitudes e, consequentemente, o arrasto.
Foi justamente esse cenário que acelerou a deterioração da órbita do Swift nos últimos anos. A NASA já havia identificado que a atividade solar recente estava contribuindo para a queda mais rápida do observatório.
No momento do anúncio do cancelamento, o Swift estava a aproximadamente 345 quilômetros de altitude.
O fim do Swift representa a perda de um observatório construído especialmente para estudar fenômenos que surgem repentinamente no céu.
Uma de suas principais especialidades são as explosões de raios gama, eventos extremamente energéticos associados, entre outros processos, ao colapso de estrelas massivas e a fusões envolvendo objetos compactos.
O Swift foi projetado para detectar esses eventos e rapidamente reposicionar seus instrumentos para estudá-los em diferentes comprimentos de onda. Essa capacidade também permitiu investigar outros acontecimentos transitórios, incluindo explosões estelares e diferentes fontes variáveis de raios X.
Para reduzir a perda de altitude, seus instrumentos científicos já haviam sido desligados anteriormente neste ano.
Sem o resgate, a expectativa agora é que o observatório continue descendo até encontrar regiões cada vez mais densas da atmosfera. A NASA já projetava sua reentrada para 2026, embora previsões desse tipo estejam sujeitas a alterações conforme a atividade solar e as condições atmosféricas.
O cancelamento da captura não significa o encerramento imediato das atividades da espaçonave de resgate.
A Katalyst pretende continuar operando a Link nas proximidades do Swift para testar tecnologias e procedimentos que possam ser úteis em futuras missões de manutenção e reposicionamento de satélites.
Mesmo sem completar seu principal objetivo, a missão poderá fornecer dados sobre operações de aproximação e controle de espaçonaves em órbita.
A experiência também é relevante porque a capacidade de reparar, reabastecer ou reposicionar satélites que não foram originalmente construídos para receber manutenção pode prolongar a vida útil de futuras missões e evitar a perda prematura de equipamentos valiosos.
O resultado também chama atenção para outro observatório veterano da NASA: o Telescópio Espacial Hubble.
Assim como o Swift, o Hubble está em órbita baixa e sofre perda gradual de altitude devido ao arrasto atmosférico. Estudos da NASA já analisaram diferentes cenários para sua futura deterioração orbital.
O sucesso da operação com o Swift poderia demonstrar tecnologias úteis para uma eventual missão semelhante envolvendo outros satélites, mas isso não significa que o cancelamento determine automaticamente o futuro do Hubble.
Por enquanto, não há base para afirmar que o telescópio esteja “condenado” pela falha da Link. O que a missão do Swift mostrou é que realizar uma operação de resgate robótico em uma espaçonave que nunca foi projetada para isso continua sendo um desafio tecnológico considerável.
Para o Swift, entretanto, o tempo está acabando. Depois de mais de duas décadas acompanhando alguns dos eventos mais violentos do cosmos, o observatório agora deverá encerrar sua história na mesma atmosfera acima da qual realizou suas observações desde 2004.
Sobre a Imagem: Ilustração artística do Observatório Neil Gehrels Swift. Créditos da Imagem: NASA/Northrop Grumman.
Fonte: https://arstechnica.com/space/2026/08/nasa-calls-off-mission-to-rescue-swift-gamma-ray-observatory/