
Prever o comportamento do Sol exige identificar mudanças que muitas vezes começam antes de qualquer sinal evidente em sua superfície. Um novo estudo mostra que a inteligência artificial pode ajudar justamente nessa etapa: reconhecer indícios de uma região magneticamente ativa enquanto ela ainda está se formando.
Pesquisadores desenvolveram o EarlyDetect, um modelo que, durante os testes, conseguiu antecipar em média 9,24 horas o momento em que novas regiões ativas se tornariam observáveis.
Essas regiões concentram campos magnéticos intensos e estão associadas ao aparecimento de manchas solares. Também são nelas que podem ocorrer erupções, embora seu simples surgimento não signifique que uma explosão esteja prestes a acontecer.
Para encontrar sinais tão precoces, os pesquisadores recorreram a algo que acontece continuamente no interior do Sol: suas vibrações.
O interior do Sol é atravessado continuamente por ondas acústicas, ou ondas de pressão, que produzem pequenas oscilações detectáveis em sua superfície. Alterações sutis no comportamento dessas ondas podem revelar mudanças que estão ocorrendo abaixo da superfície. Estruturas magnéticas em ascensão podem modificar discretamente esse padrão antes de se tornarem visíveis nas observações convencionais.
Foi esse conjunto de pistas que os pesquisadores ensinaram a inteligência artificial a reconhecer.
O EarlyDetect recebeu dados do instrumento HMI, instalado no Observatório de Dinâmica Solar da NASA. O sistema compara informações sobre as oscilações solares com medições do campo magnético e procura padrões que antecederam o aparecimento de regiões ativas.
Um detalhe inesperado surgiu durante o desenvolvimento. Os pesquisadores tentaram inicialmente limpar os dados para reduzir aquilo que parecia ser ruído. O procedimento, porém, piorou o desempenho do modelo.
Parte das pequenas oscilações eliminadas pelo filtro continha justamente as informações necessárias para antecipar o fenômeno. Em outras palavras, sinais aparentemente insignificantes estavam entre as primeiras manifestações detectáveis da atividade magnética que avançava em direção à superfície.
Depois de treinado, o sistema foi colocado diante de regiões que não faziam parte do conjunto utilizado em seu aprendizado. Foi nesse teste que a melhor versão alcançou a antecedência média de 9,24 horas.
O resultado abre uma possibilidade interessante para a previsão do clima espacial, mas ainda existe uma distância considerável entre o experimento e um sistema de alerta operacional.
O EarlyDetect não prevê erupções solares nem ejeções de massa coronal. Ele tenta antecipar o surgimento das regiões onde esses fenômenos podem ocorrer. Uma região ativa pode permanecer relativamente tranquila e nunca produzir uma grande erupção.
Além disso, o modelo ainda apresenta falsos alarmes e casos em que a identificação acontece tarde demais. Os pesquisadores precisarão testá-lo com uma quantidade muito maior de eventos antes de avaliar sua utilização em previsões em tempo real.
Mesmo assim, o trabalho demonstra que informações sobre o futuro comportamento da superfície solar podem estar escondidas nas pequenas alterações que acontecem horas antes de uma região ativa aparecer.
Se essa capacidade for aprimorada, modelos semelhantes poderão acrescentar uma nova etapa aos sistemas de previsão solar: detectar não apenas o que já está acontecendo no Sol, mas reconhecer antecipadamente onde uma nova região de atividade magnética está começando a emergir.
Sobre a imagem: O Sol
Créditos da imagem: Unsplash/CC0 Domínio Público
Estudo científico: https://agupubs.onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1029/2025JH001207