
Astrônomos divulgaram nesta segunda-feira, 10 de agosto, o maior mapa colorido bidimensional do Universo já produzido. Construído pela equipe dos Levantamentos de Imagens Legadas do DESI, o gigantesco mosaico possui 5,6 trilhões de pixels e reúne quase 4 bilhões de objetos celestes, principalmente estrelas e galáxias.
O mapa cobre aproximadamente 75% do céu em comprimentos de onda visíveis e do infravermelho próximo e oferece uma das visões mais profundas já reunidas do Universo extragaláctico. Todo o conjunto de dados foi disponibilizado publicamente e pode ser explorado por qualquer pessoa através do Legacy Survey Sky Viewer.
Isso significa que não apenas astrônomos profissionais, mas também estudantes e cientistas cidadãos poderão navegar pelo levantamento, observar galáxias distantes e combinar as informações com suas próprias observações.
A nova versão é resultado de aproximadamente 13 anos de trabalho e amplia os mapas anteriores produzidos pelos Levantamentos Legados do DESI.
Para construir o conjunto final, os pesquisadores combinaram 263.407 exposições obtidas por três grandes levantamentos terrestres: o Dark Energy Camera Legacy Survey, realizado no Observatório Interamericano de Cerro Tololo, no Chile; o Mayall z-band Legacy Survey, no Observatório Nacional de Kitt Peak, nos Estados Unidos; e o Beijing-Arizona Sky Survey.
Os dados também foram complementados por anos de observações da missão WISE, da NASA, que realizou um levantamento de todo o céu no infravermelho, além de outros conjuntos de dados astronômicos públicos.
Mais de 160 cientistas participaram da obtenção das observações e uma equipe de aproximadamente 20 pesquisadores trabalhou diretamente na criação da versão final do mapa.
As imagens que formam o levantamento foram obtidas ao longo de 2.285 noites.
Combinar esse material não foi simples. Cada fotografia foi registrada sob condições diferentes de atmosfera, iluminação e funcionamento dos telescópios.
Os pesquisadores precisaram desenvolver programas específicos para corrigir essas diferenças e transformar centenas de milhares de exposições individuais em um único mapa uniforme do céu.
O desenvolvimento do código utilizado no processamento levou aproximadamente um ano. Depois disso, foram necessárias outras oito semanas de processamento no supercomputador Perlmutter, instalado no Centro Nacional de Computação Científica para Pesquisa Energética do Laboratório Berkeley.
O levantamento não é apenas uma imagem impressionante do céu.
Cada objeto catalogado possui informações sobre sua posição e brilho, permitindo que os astrônomos selecionem galáxias, estrelas e outros alvos para estudos posteriores.
Os pesquisadores também podem usar o mapa para procurar fenômenos raros, como lentes gravitacionais, nas quais a gravidade de um objeto massivo distorce e amplia a luz de uma galáxia mais distante.
O conjunto ainda pode servir como referência para identificar fenômenos transitórios, como supernovas, comparando novas observações com imagens anteriores daquela região do céu.
As versões anteriores do levantamento já foram utilizadas em mais de 1.800 artigos científicos, mostrando a importância desse banco de dados para a astronomia moderna.
O projeto foi originalmente criado para preparar os alvos do Instrumento Espectroscópico de Energia Escura, o DESI.
Existe uma diferença importante entre os dois levantamentos.
O novo mapa 2D mostra onde os objetos aparecem no céu e qual é seu brilho.
Já o DESI analisa o espectro da luz de milhões dessas galáxias para determinar suas distâncias, permitindo transformar a distribuição observada no céu em um gigantesco mapa tridimensional do Universo.
Com essas informações, os cientistas podem estudar como as galáxias se distribuíram ao longo de diferentes épocas cósmicas e, dessa forma, investigar como a expansão do Universo mudou ao longo de bilhões de anos.
Um dos principais objetivos do DESI é compreender a energia escura, nome dado ao fenômeno associado à expansão acelerada do Universo.
Em abril de 2026, o projeto concluiu antecipadamente seu levantamento original de cinco anos, tendo observado muito mais objetos do que inicialmente previsto.
Resultados anteriores do DESI já apresentaram indícios de que a influência da energia escura pode não ter permanecido constante ao longo da história cósmica. Essa possibilidade ainda precisa ser confirmada, mas, se persistir em futuras análises, poderá exigir mudanças importantes nos modelos utilizados para explicar a evolução do Universo.
O DESI deverá divulgar resultados aprimorados baseados nos primeiros cinco anos de observações em 2027 e continuará coletando dados durante 2028.
Curiosamente, o próprio sucesso do DESI foi uma das razões para a expansão do mapa.
O instrumento mostrou-se tão eficiente em observar galáxias que os pesquisadores perceberam que poderiam começar a ficar sem novos alvos disponíveis nas regiões originalmente mapeadas.
A nova versão dos Levantamentos Legados ampliou a quantidade de céu disponível para selecionar futuras observações.
Desde junho de 2026, o mapa atualizado já está sendo utilizado para escolher novos alvos do DESI e continuará orientando suas observações nos próximos anos.
O enorme banco de imagens também deverá servir como uma espécie de fotografia de referência do céu antes da entrada em operação completa de uma nova geração de observatórios.
Entre eles estão o Observatório Vera C. Rubin e o Telescópio Espacial Nancy Grace Roman.
Ao comparar futuras observações desses telescópios com as imagens do Legacy Surveys, os pesquisadores poderão identificar objetos que mudaram de brilho, novas explosões, movimentos e outros fenômenos que ocorreram ao longo do tempo.
Os dados também serão utilizados para treinar ferramentas de inteligência artificial capazes de analisar os enormes volumes de informações produzidos pela próxima geração de levantamentos astronômicos.
Com quase 4 bilhões de objetos registrados em uma única visão do céu, o novo mapa não representa apenas um retrato gigantesco do Universo. Ele deverá funcionar durante anos como uma das principais bases de dados para novas descobertas sobre galáxias, matéria escura, energia escura e a própria evolução do cosmos.
Sobre a Imagem: Entre os quase 4 bilhões de objetos no mapa do DESI Legacy Imaging Surveys está a galáxia Messier 96, uma galáxia espiral localizada a aproximadamente 35 milhões de anos-luz da Terra. Esta imagem foi capturada com a câmera de energia escura (DECam) de 570 megapixels, fabricada pelo Departamento de Energia dos EUA e instalada no Telescópio Víctor M. Blanco de 4 metros da Fundação Nacional de Ciência dos EUA (NSF), no Observatório Interamericano de Cerro Tololo (CTIO) da NSF, no Chile, um programa do NSF NOIRLab. Créditos: DESI Legacy Imaging Surveys/LBNL/DOE & KPNO/CTIO/NOIRLab/NSF/AURA.
Mapa:https://viewer.legacysurvey.org/#PGC1465664
Fonte: https://newscenter.lbl.gov/