Anéis invisíveis podem revelar novo comportamento da atmosfera de Vênus

Uma observação realizada por acaso há mais de 15 anos pode ter revelado um fenômeno completamente novo na atmosfera de Vênus.

Durante apenas 36 minutos, um instrumento experimental registrou enormes anéis concêntricos envolvendo grande parte do lado iluminado do planeta. Essas estruturas eram invisíveis na luz comum e apareceram apenas quando observadas em luz polarizada.

O mais intrigante é que ninguém esperava encontrar algo parecido.

Os pesquisadores passaram anos tentando demonstrar que o sinal era apenas um erro instrumental. No entanto, nenhuma explicação conseguiu reproduzir o fenômeno.

Agora, a equipe decidiu publicar os resultados na revista Astronomy & Astrophysics, convidando outros grupos a tentarem confirmar a descoberta.

As observações ocorreram em 2010, no Telescópio William Herschel, localizado nas Ilhas Canárias.

Naquela noite, o astrônomo Michiel Rodenhuis aguardava o céu escurecer para iniciar outro programa de observação quando percebeu Vênus brilhando intensamente no crepúsculo.

Aproveitando a oportunidade, ele apontou para o planeta um instrumento experimental chamado Polarímetro Extremo (ExPo).

O equipamento funcionava de maneira diferente de uma câmera convencional.

Em vez de registrar toda a luz refletida por Vênus, ele observava apenas a luz linearmente polarizada, produzida quando a luz solar é espalhada pelas partículas presentes na atmosfera.

Essa técnica permite revelar estruturas atmosféricas extremamente sutis que normalmente permanecem invisíveis.

Meses depois, durante a análise dos dados, surgiu uma surpresa.

As imagens mostravam uma série de grandes anéis concêntricos envolvendo boa parte do hemisfério diurno de Vênus.

As estruturas lembravam as ondulações produzidas quando uma pedra é lançada sobre a água, como se toda a atmosfera do planeta estivesse vibrando.

A primeira reação da equipe foi imaginar que se tratava de um defeito do instrumento.

Os pesquisadores investigaram diversas possibilidades, incluindo problemas no detector, artefatos eletrônicos e erros no processamento das imagens.

Nenhuma delas conseguiu explicar satisfatoriamente o sinal observado.

Anos depois, já durante seu doutorado, o pesquisador Gourav Mahapatra, da Universidade de Delft, retomou o caso.

Nesse período, uma descoberta importante havia sido feita pela sonda japonesa Akatsuki, que observou enormes ondas atmosféricas atravessando a atmosfera de Vênus.

Isso levou os pesquisadores a testar uma nova hipótese.

Utilizando simulações computacionais, eles investigaram se ondas gravitacionais atmosféricas poderiam provocar pequenas variações na densidade da atmosfera superior.

Os resultados mostraram que alterações de apenas 5% a 10% na densidade do gás seriam suficientes para produzir exatamente o padrão de polarização observado em 2010.

Apesar do nome, as ondas gravitacionais atmosféricas não têm relação com as ondas gravitacionais previstas por Einstein.

Nesse caso, trata-se de oscilações produzidas quando uma parcela da atmosfera é deslocada e a gravidade tenta restaurar seu equilíbrio.

Na Terra, essas ondas podem formar padrões nas nuvens e transportar energia por centenas ou milhares de quilômetros.

Em Vênus, acredita-se que elas também desempenhem um papel importante na circulação atmosférica.

Um dos maiores enigmas de Vênus é sua super-rotação atmosférica.

Embora o planeta leve 243 dias terrestres para completar uma rotação em torno do próprio eixo, suas nuvens dão uma volta completa ao planeta em apenas cerca de quatro dias terrestres.

Os cientistas ainda não compreendem completamente como essa enorme quantidade de movimento é mantida.

Se os anéis realmente forem a assinatura de grandes ondas atmosféricas, eles poderão fornecer uma nova forma de estudar como energia e momento são transportados pelas diferentes camadas da atmosfera venusiana.

Apesar dos resultados promissores, os próprios autores fazem um alerta importante.

Toda a descoberta se baseia em uma única observação realizada durante apenas 36 minutos.

Além disso, o instrumento ExPo foi desmontado logo depois daquela campanha de observação e nunca mais pôde ser utilizado.

Por isso, ainda não é possível afirmar que os anéis realmente existam.

Os pesquisadores esperam que polarímetros modernos, instalados em telescópios terrestres, realizem novas observações de Vênus para verificar se o fenômeno pode ser registrado novamente.

Se isso acontecer, poderá surgir uma nova ferramenta para estudar a atmosfera do planeta mais parecido com a Terra em tamanho, mas completamente diferente em sua evolução.

Sobre a Imagem: A luz polarizada observada através de seis filtros diferentes. Créditos da Imagem: Mahapatra et al., Planet. Sci. J. , 2026.

Link do Estudo: https://iopscience.iop.org/article/10.3847/PSJ/ae7e6f

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