
Um objeto próximo da Terra acompanhado por astrônomos desde 1998 passou quase três décadas classificado como asteroide. Agora, observações realizadas durante uma aproximação em 2025 revelaram que ele é, na verdade, um cometa de atividade muito discreta.
O objeto, conhecido até então como 1998 SH2, apresentou pequenas alterações em sua trajetória que não podiam ser explicadas apenas pela gravidade do Sol e dos planetas. A investigação mostrou que essas perturbações foram produzidas pela liberação de gases, um comportamento característico dos cometas.
Imagens profundas obtidas com grandes telescópios posteriormente revelaram uma cauda fraca, confirmando a hipótese. O objeto deverá receber também a designação cometária P/1998 SH2.
O estudo foi publicado em 10 de julho de 2026 na revista Nature Astronomy.
A descoberta começou durante a aproximação do objeto à Terra, em agosto de 2025.
O 1998 SH2 completa uma volta ao redor do Sol aproximadamente a cada quatro anos e meio. Sua órbita havia sido acompanhada entre 1998 e 2016, mas ele passou duas órbitas completas sem novas observações antes de reaparecer em 2025.
Em 28 de agosto daquele ano, o objeto passou com segurança a cerca de 3 milhões de quilômetros da Terra. Astrônomos pretendiam observá-lo com o sistema de radar planetário da Rede de Espaço Profundo da NASA, mas ele não apareceu exatamente na posição prevista.
Quando foi finalmente localizado por observações ópticas, estava significativamente afastado da trajetória calculada apenas com as influências gravitacionais conhecidas.
Pequenos corpos do Sistema Solar podem sofrer alterações orbitais produzidas por diferentes mecanismos.
Nos asteroides, uma dessas forças é o chamado efeito Yarkovsky, no qual o calor absorvido do Sol é liberado de maneira desigual pela superfície, produzindo uma aceleração muito pequena.
No caso do 1998 SH2, porém, a aceleração detectada era cerca de dez vezes maior do que o máximo esperado para o efeito Yarkovsky em um objeto de seu tamanho.
A explicação mais provável era a sublimação: o calor solar transforma diretamente em gás o gelo misturado ao material rochoso. Ao escapar para o espaço, esse gás produz um pequeno impulso que modifica gradualmente a órbita do objeto.
Cometas normalmente desenvolvem uma coma, formada por gás e poeira ao redor do núcleo, e uma cauda visível quando se aproximam do Sol.
Entretanto, quando a liberação de material é muito fraca, esses sinais podem permanecer abaixo do limite de detecção da maioria dos levantamentos astronômicos.
Durante a aproximação de 2025, o 1998 SH2 foi observado pelo Telescópio Canadá-França-Havaí, pelo Telescópio Dinamarquês do Observatório Europeu do Sul, no Chile, e pelo Very Large Telescope.
As imagens mais sensíveis mostraram uma cauda fraca, mas clara, comprovando que o objeto apresentava atividade cometária. Fotografias arquivadas mais antigas não haviam revelado nenhum sinal semelhante.
Medições infravermelhas feitas anteriormente pelo observatório espacial NEOWISE indicam que o 1998 SH2 possui aproximadamente 380 metros de diâmetro, com margem de incerteza de 57 metros.
O objeto também apresenta uma superfície muito escura, refletindo apenas uma pequena parcela da luz solar. Essa característica é compatível tanto com certos tipos de asteroides quanto com núcleos cometários.
Sua órbita alongada e alguns de seus parâmetros orbitais também se aproximam daqueles encontrados nos cometas da família de Júpiter.
A descoberta ajuda a compreender uma categoria relativamente recente de pequenos corpos conhecida informalmente como cometas escuros.
Esses objetos parecem asteroides nas imagens porque não exibem coma nem cauda visível. Ao mesmo tempo, suas órbitas apresentam acelerações que podem indicar a liberação de gases.
Foram identificados cerca de 14 objetos próximos da Terra com esse tipo de comportamento. Eles parecem formar dois grupos: corpos menores que permanecem mais próximos do Sol e objetos maiores com órbitas semelhantes às dos cometas da família de Júpiter.
O 1998 SH2 já não deve ser considerado apenas um cometa escuro porque sua cauda foi finalmente observada. O caso, porém, sugere que outros integrantes do grupo podem ser cometas comuns cuja atividade é fraca demais para aparecer nas observações disponíveis.
O 1998 SH2 não representa atualmente uma ameaça conhecida de colisão com a Terra. Sua aproximação de 2025 ocorreu a uma distância segura.
O caso é relevante para a defesa planetária porque o movimento de um cometa pode ser afetado pela liberação de gases de maneira mais intensa do que o de um asteroide típico.
Identificar corretamente a natureza de um objeto ajuda os pesquisadores a calcular sua trajetória futura e a compreender propriedades como composição, densidade e estrutura interna. Essas informações também seriam importantes para planejar uma eventual missão de desvio.
O estudo demonstra que perturbações não gravitacionais acumuladas ao longo de muitos anos podem servir como uma ferramenta para reconhecer cometas de atividade extremamente fraca entre os objetos classificados como asteroides.
Os pesquisadores defendem que dados astrométricos de outros objetos próximos da Terra sejam reanalisados em busca de acelerações semelhantes.
Grandes telescópios também poderão procurar caudas ou comas muito tênues em corpos que apresentam movimentos incomuns.
A futura missão NEO Surveyor, da NASA, deverá contribuir para esse trabalho ao procurar objetos próximos da Terra difíceis de detectar na luz visível, incluindo asteroides escuros e cometas discretos.
Depois de 27 anos parecendo apenas uma rocha espacial, o 1998 SH2 mostrou que a fronteira entre asteroides e cometas pode ser muito menos definida do que as classificações tradicionais sugerem.
Sobre a imagem: Ilustração de um possível “cometa escuro”, designado 2016 WF9, passando por Júpiter na porção de sua órbita voltada para o Sol.
Créditos da imagem: NASA/JPL-Caltech
Estudo: https://www.nature.com/articles/s41550-026-02913-7