Novo estudo indica que Vênus pode ser muito mais ativo do que imaginávamos

Durante décadas, Vênus foi considerado um planeta praticamente “morto” do ponto de vista geológico. A ausência de placas tectônicas como as da Terra levou muitos cientistas a acreditar que sua superfície permanecia praticamente inalterada há centenas de milhões de anos.

Mas essa visão vem mudando rapidamente.

Depois de evidências recentes de possível atividade vulcânica, um novo estudo agora indica que os gigantescos vales tectônicos de Vênus também podem ser muito mais jovens do que se imaginava, sugerindo que o planeta continua geologicamente ativo.

A pesquisa foi publicada na revista Nature Geoscience.

Vênus possui enormes sistemas de fraturas conhecidos como vales de rifte.

Essas estruturas surgem quando a crosta é esticada, formando longos vales limitados por grandes escarpas.

Na Terra, exemplos famosos desse processo podem ser vistos no Vale do Rift da África Oriental, onde o continente está lentamente se separando.

Em Vênus, porém, esses sistemas são muito maiores.

Alguns deles se estendem por até 10 mil quilômetros, tornando-se algumas das maiores estruturas tectônicas conhecidas no Sistema Solar.

Até agora, a maioria dos pesquisadores acreditava que essas formações haviam surgido há mais de 100 milhões de anos e representavam apenas vestígios de uma atividade geológica antiga.

Pesquisadores da ETH Zurique, liderados pelo geodinamicista Taras Gerya, desenvolveram um modelo computacional tridimensional de alta resolução para simular, pela primeira vez, como esses riftes se formam e evoluem.

O trabalho foi conduzido por Xi Yang, durante seu mestrado na instituição.

Diferentemente dos modelos anteriores, que utilizavam simplificações e simulações em duas dimensões, o novo modelo conseguiu reproduzir com muito mais fidelidade a evolução das estruturas observadas na superfície venusiana.

As simulações revelaram que riftes geologicamente jovens apresentam grandes elevações ao longo de suas bordas, conhecidas como flancos de rifte.

Enquanto o sistema permanece ativo, esses flancos continuam altos e bem definidos.

Quando a atividade tectônica cessa, porém, essas estruturas começam a perder altura rapidamente devido ao lento afundamento da crosta.

Como Vênus praticamente não possui erosão causada por água ou vento como ocorre na Terra, esse achatamento acontece principalmente pelo relaxamento do próprio material da crosta.

Ao comparar os resultados das simulações com imagens obtidas pela sonda Magellan, da NASA, na década de 1990, os pesquisadores encontraram diversos riftes venusianos que ainda apresentam flancos elevados e bem preservados.

Isso sugere que essas estruturas podem ser relativamente jovens ou até permanecer ativas atualmente.

O estudo também indica que esses riftes podem se alargar muito mais rapidamente do que se pensava.

Segundo o modelo, a abertura ocorre entre 3 e 10 centímetros por ano, velocidades comparáveis às observadas em algumas regiões tectonicamente ativas da Terra.

Esses resultados reforçam a ideia de que o interior de Vênus continua transferindo calor para a superfície e provocando deformações na crosta.

Nos últimos anos, diferentes pesquisas já apontaram possíveis mudanças em vulcões venusianos, fortalecendo a hipótese de que o planeta permanece geologicamente ativo.

Agora, as novas simulações acrescentam evidências de que esse dinamismo também pode estar presente em suas grandes estruturas tectônicas.

Os resultados chegam em um momento de renovado interesse por Vênus.

A Agência Espacial Europeia (ESA) prepara a missão EnVision, prevista para ser lançada no início da década de 2030.

Seu objetivo será investigar o planeta desde o núcleo até a atmosfera superior, utilizando radares e outros instrumentos para mapear sua superfície com resolução muito superior à obtida pela Magellan.

Os pesquisadores da ETH Zurique participam do desenvolvimento dos instrumentos científicos da missão.

Segundo a equipe, o novo modelo poderá ajudar a identificar quais regiões apresentam maior probabilidade de ainda estarem tectonicamente ativas, tornando-se alvos prioritários para futuras observações.

Além de melhorar nossa compreensão sobre Vênus, essas descobertas também podem ajudar os cientistas a entender como evoluem outros planetas rochosos, incluindo exoplanetas semelhantes à Terra encontrados em outros sistemas estelares.

Sobre a Imagem: Existem enormes vales de fenda em Vênus. Eles sugerem que o planeta ainda é geologicamente ativo. Créditos da Imagem: NASA/JPL/USGS.

Link do estudo: https://www.nature.com/articles/s41561-026-02044-8

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