Tempestades solares podem influenciar o clima de Marte, aponta novo estudo

A relação entre o Sol e a atmosfera de Marte pode ser mais complexa do que os cientistas imaginavam. Um novo estudo indica, pela primeira vez, que tempestades solares podem influenciar diretamente o clima marciano, desde que ocorram ao mesmo tempo que grandes tempestades de poeira no planeta.

A pesquisa foi apresentada durante a Reunião Nacional de Astronomia da Sociedade Real de Astronomia, realizada em Birmingham, e sugere que a combinação entre esses dois fenômenos pode aquecer a baixa atmosfera de Marte, região onde ocorrem os processos meteorológicos.

Embora os resultados ainda sejam considerados preliminares, eles podem levar a uma revisão dos modelos que descrevem o clima do Planeta Vermelho.

A equipe, formada por pesquisadores da Universidade de Lancaster, da Universidade de Leicester e do Instituto de Astrofísica da Andaluzia (IAA-CSIC), analisou cinco episódios em que Marte foi atingido por eventos de partículas energéticas solares (SEP).

Esses eventos ocorrem quando grandes erupções solares e ejeções de massa coronal lançam partículas carregadas de alta energia pelo Sistema Solar.

O objetivo era verificar se essas partículas poderiam alterar a temperatura da baixa atmosfera marciana.

Dos cinco casos analisados, quatro não apresentaram qualquer efeito evidente.

No entanto, um deles chamou imediatamente a atenção dos pesquisadores.

Em junho de 2018, Marte foi atingido simultaneamente por um intenso evento de partículas energéticas solares e por uma tempestade global de poeira, uma das maiores já registradas no planeta.

Foi essa mesma tempestade que encerrou a missão do rover Opportunity, da NASA, ao cobrir seus painéis solares com poeira e impedir sua recarga.

Ao analisar esse período, os pesquisadores encontraram um comportamento diferente dos demais casos.

A baixa atmosfera apresentou um aquecimento acima do esperado, algo que não pôde ser explicado apenas pela tempestade de poeira.

Segundo a líder do estudo, Lana Williams, a equipe esperava encontrar algum efeito causado pelas partículas solares, mas ficou surpresa ao perceber que isso só ocorreu quando elas coincidiram com a gigantesca tempestade de poeira.

O estudo utilizou observações de duas importantes missões que estudam Marte.

A primeira foi a sonda MAVEN, da NASA, responsável por investigar como a atmosfera marciana interage com o vento solar.

A segunda foi a Trace Gas Orbiter, da Agência Espacial Europeia (ESA), que monitora a composição e a estrutura da atmosfera do planeta.

Os pesquisadores compararam as temperaturas medidas por essas espaçonaves com os valores previstos pelo Banco de Dados Climáticos de Marte, analisando os períodos anteriores, durante e posteriores aos cinco eventos solares estudados.

Foi somente no episódio de 2018 que apareceu um padrão consistente de aquecimento na atmosfera inferior.

Ao contrário da Terra, Marte praticamente não possui um campo magnético global capaz de desviar partículas carregadas vindas do Sol.

Além disso, sua atmosfera é cerca de 100 vezes menos densa que a terrestre.

Isso permite que partículas altamente energéticas penetrem muito mais facilmente nas camadas atmosféricas do planeta.

Pesquisas anteriores já haviam mostrado que esses eventos podem provocar auroras, aumentar a ionização da atmosfera superior e interferir em comunicações por rádio.

Agora surge a possibilidade de que seus efeitos alcancem também as camadas mais baixas da atmosfera, onde se formam nuvens, ventos e tempestades de poeira.

Curiosamente, as tempestades de poeira nem faziam parte do objetivo original da pesquisa.

Os cientistas só perceberam sua importância depois de constatar que apenas um dos cinco eventos apresentava aquecimento anômalo.

Ao investigar o que havia de diferente naquele caso, descobriram que ele coincidia exatamente com uma tempestade global de poeira.

Segundo os autores, isso sugere que atividade solar e fenômenos meteorológicos marcianos podem atuar em conjunto, produzindo efeitos que não aparecem quando cada processo ocorre isoladamente.

Apesar do resultado promissor, os pesquisadores alertam que ainda não é possível afirmar que exista uma relação direta entre os dois fenômenos.

Como apenas um caso apresentou esse comportamento, serão necessárias novas observações de futuras tempestades solares coincidindo com grandes tempestades de poeira para confirmar se o aquecimento realmente faz parte desse processo ou se outro fator desconhecido esteve envolvido.

Se a hipótese for confirmada, ela poderá mudar a forma como os cientistas compreendem a atmosfera marciana.

Além de aperfeiçoar os modelos climáticos do planeta, esse conhecimento também poderá ser importante para futuras missões robóticas e tripuladas, que precisarão prever com maior precisão os efeitos combinados do clima espacial e das condições meteorológicas em Marte.

Sobre a Imagem: Comparação de Marte antes (esquerda) e durante (direita) a tempestade de poeira de junho de 2018, que coincidiu com o evento de partículas energéticas solares examinado pela equipe da Universidade de Lancaster. Imagens capturadas pelo Mars Color Imager (MARCI), uma câmera grande angular a bordo da sonda Mars Reconnaissance Orbiter (MRO) da NASA, que mapeia as condições climáticas diárias em todo o planeta. Crédito da Imagem: NASA/JPL-Caltech/Universidade do Arizona.

Fonte: https://www.ras.ac.uk/news-and-press/research-highlights/nam-2026-first-study-hints-solar-storms-may-alter-weather-during

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