
Mesmo sendo um dos objetos mais estudados do céu, a Nebulosa de Órion ainda guarda surpresas. Utilizando dois dos radiotelescópios mais avançados do mundo, uma equipe internacional de astrônomos produziu o mapa mais detalhado já feito do hidrogênio atômico na região e descobriu estruturas que haviam permanecido invisíveis até agora.
O estudo, liderado por Juan Diego Soler, da Universidade de Viena, foi publicado na revista Astronomy & Astrophysics e traz uma nova visão sobre como estrelas massivas moldam o ambiente onde nascem.
Para realizar o levantamento, os pesquisadores combinaram observações do Karl G. Jansky Very Large Array (VLA), nos Estados Unidos, com o gigantesco radiotelescópio FAST, na China.
Essa combinação permitiu unir duas capacidades complementares: o VLA forneceu imagens com alta resolução espacial, enquanto o FAST detectou emissões extremamente fracas e difusas que normalmente escapam das observações.
O resultado foi o primeiro mapa detalhado do hidrogênio neutro da Nebulosa de Órion com qualidade suficiente para revelar sua estrutura em detalhes.
Uma das maiores surpresas do estudo foi a nova estimativa da massa da camada de gás localizada na parte frontal da nebulosa.
Pesquisas anteriores, baseadas principalmente em observações de carbono ionizado, indicavam que essa estrutura possuía cerca de 1.100 massas solares.
As novas observações contam uma história bastante diferente.
Segundo o levantamento, essa camada contém aproximadamente 100 vezes a massa do Sol, cerca de dez vezes menos do que se acreditava.
Essa diferença é importante porque a massa da nebulosa influencia diretamente os modelos que descrevem como estrelas jovens modificam o ambiente ao seu redor por meio da radiação intensa e dos ventos estelares.
Os pesquisadores ressaltam que parte da massa aparentemente “desaparecida” pode estar na forma de hidrogênio molecular, que não é detectado pelas técnicas utilizadas neste estudo.
Além da revisão na massa, os novos mapas revelaram uma descoberta inesperada.
Dentro da estrutura principal da Nebulosa de Órion existe uma segunda cavidade, menor e até então desconhecida.
Até agora, os modelos descreviam a nebulosa como uma única bolha esculpida pela ação de estrelas massivas.
A presença dessa nova cavidade sugere que a região pode ter sido moldada por múltiplos episódios de retroalimentação estelar, em vez de apenas um único evento.
Os pesquisadores procuraram estrelas jovens ou outros objetos conhecidos que pudessem ter produzido essa cavidade, mas não encontraram nenhum candidato convincente.
Isso indica que o objeto responsável pode ser diferente dos atualmente catalogados ou que sua assinatura já desapareceu.
Os novos mapas também revelaram uma enorme estrutura de hidrogênio neutro que havia sido observada apenas parcialmente em estudos anteriores.
Trata-se de um filamento com aproximadamente quatro anos-luz de comprimento, que se estende a partir da borda oeste da nebulosa.
Esse filamento contém cerca de 80 massas solares de hidrogênio e não parece estar ligado a nenhum agrupamento conhecido de estrelas jovens.
Sua origem ainda é um mistério.
Os pesquisadores consideram duas possibilidades principais.
A primeira é que o gás esteja escapando por uma região mais frágil da camada da nebulosa, como se houvesse uma abertura permitindo o vazamento do material.
A segunda hipótese é que o filamento seja um remanescente da nuvem interestelar original que existia antes da formação das estrelas da Nebulosa de Órion.
Localizada a cerca de 1.350 anos-luz da Terra, a Nebulosa de Órion é a região de formação estelar mais próxima onde estrelas massivas estão nascendo ativamente.
Por essa razão, ela funciona como um laboratório natural para compreender como o nascimento de estrelas influencia a evolução das nuvens de gás e poeira que as cercam.
Segundo os autores, as novas observações servirão como referência para modelos computacionais que simulam a formação estelar e a evolução do meio interestelar na Via Láctea.
Este trabalho marca o primeiro resultado científico do projeto NeAtHood, uma iniciativa que pretende mapear o hidrogênio atômico em diversas regiões de formação estelar próximas utilizando a combinação entre o VLA e o FAST.
A expectativa é aplicar a mesma metodologia em outras nebulosas da nossa galáxia.
Se uma das regiões mais estudadas da astronomia ainda escondia estruturas completamente desconhecidas, é possível que muitos outros berçários estelares também revelem novas surpresas nos próximos anos.
Sobre a Imagem: Emissão de rádio de átomos de hidrogênio neutro na direção da Nebulosa de Órion, a região mais próxima de formação de estrelas de alta massa. As cores vermelhas mostram a emissão de 21 cm do hidrogênio, resolvida pela primeira vez com esse nível de detalhe por observações do projeto Hidrogênio Atômico Neutro na Vizinhança Solar (NeAtHood), liderado por Juan Diego Soler, da Universidade de Viena. As cores ciano mostram a emissão de poeira interestelar quente na luz infravermelha próxima. Créditos da Imagem: Juan D. Soler, Universidade de Viena, com dados do Jansky VLA do NRAO e do Wide-field Infrared Survey Explorer (WISE) da NASA.
Fonte: https://thedebrief.org/astronomers-uncovered-a-hidden-bubble-inside-the-orion-nebula/