
Além de se tornar a primeira missão da história a pousar suavemente no lado oculto da Lua, a sonda chinesa Chang’E-4 realizou outro feito pouco conhecido: a primeira busca por possíveis sinais de tecnologia extraterrestre a partir da superfície lunar.
Os resultados foram apresentados em um estudo ainda em fase de pré-publicação, que descreve como os pesquisadores aproveitaram o ambiente extremamente silencioso do lado oculto da Lua para realizar observações voltadas ao programa SETI (Busca por Inteligência Extraterrestre).
A Chang’E-4 pousou em 2 de janeiro de 2019, na Cratera Von Kármán, localizada na Bacia Polo Sul-Aitken, uma das maiores estruturas de impacto do Sistema Solar.
Desde então, a missão vem estudando a geologia da região e realizando diversos experimentos científicos. Entre eles estava uma observação inédita voltada à procura de possíveis tecnoassinaturas.
Tecnoassinaturas são evidências de tecnologia produzida por uma civilização inteligente. Um dos métodos mais utilizados pelo SETI consiste em procurar sinais de rádio artificiais, especialmente transmissões estreitas em frequência, semelhantes às utilizadas pela própria humanidade para comunicações de longa distância.
Segundo os pesquisadores, o lado oculto da Lua oferece uma vantagem única para esse tipo de observação.
Como ele permanece permanentemente voltado para longe da Terra, a própria Lua bloqueia quase toda a interferência de rádio produzida por transmissões terrestres, satélites e equipamentos eletrônicos.
Esse isolamento cria um ambiente eletromagnético muito mais limpo do que qualquer observatório localizado na superfície terrestre.
A interferência de rádio proveniente da Terra é um dos maiores desafios enfrentados pelos programas de busca por inteligência extraterrestre, pois muitos sinais artificiais podem mascarar ou imitar possíveis transmissões vindas do espaço.
Durante a campanha de observações, os pesquisadores analisaram cuidadosamente sinais de banda estreita, considerados um dos tipos de emissão mais promissores para identificar possíveis comunicações artificiais.
No entanto, nenhum candidato convincente foi encontrado.
Os poucos sinais estruturados identificados durante a análise foram atribuídos com alta probabilidade à interferência residual de rádio e não apresentaram características compatíveis com uma origem extraterrestre.
Embora o resultado tenha sido negativo, os pesquisadores consideram o experimento um sucesso.
Pela primeira vez foi demonstrado, na prática, que o lado oculto da Lua pode funcionar como uma excelente plataforma para observações de rádio extremamente sensíveis.
O estudo também reforça uma tendência que vem ganhando força entre as agências espaciais.
A China já planeja instalar instrumentos de radioastronomia em futuras missões do programa Chang’E e na futura Estação Internacional de Pesquisa Lunar (ILRS).
A NASA também iniciou o desenvolvimento de experimentos semelhantes, como o ROLSES (Radio wave Observations at the Lunar Surface of the photoElectron Sheath), que será levado à Lua por meio do programa CLPS (Commercial Lunar Payload Services).
Segundo os autores, esses projetos poderão transformar o lado oculto da Lua em um dos principais locais do Sistema Solar para observações de rádio de altíssima sensibilidade, beneficiando não apenas o SETI, mas também estudos sobre o Universo primitivo, o Sol, explosões cósmicas e diversas outras áreas da radioastronomia.
Mesmo sem encontrar sinais de civilizações extraterrestres, a Chang’E-4 demonstrou que nosso satélite natural pode desempenhar um papel fundamental nas futuras buscas por vida inteligente fora da Terra.
Sobre a Imagem: Uma das primeiras imagens enviadas da superfície do lado oculto da Lua. Crédito da imagem: Administração Espacial Nacional da China
Link do Estudo: https://arxiv.org/pdf/2604.07920