
Um sistema planetário localizado além do Sistema Solar está levando astrônomos a repensarem como planetas podem se formar e evoluir. Observações recentes revelaram que uma anã marrom em uma órbita extremamente alongada desempenhou um papel decisivo na arquitetura do sistema TOI-201, criando uma configuração que contradiz as previsões dos modelos tradicionais de formação planetária.
A descoberta foi feita por uma equipe internacional liderada por pesquisadores do Observatório Europeu do Sul (ESO) e do Instituto Nacional de Astrofísica (INAF), utilizando dados do Satélite de Pesquisa de Exoplanetas em Trânsito (TESS), da NASA, além de observações obtidas em telescópios instalados no Observatório La Silla, no Chile. O estudo foi publicado na revista Nature.
O sistema TOI-201 é composto por uma estrela semelhante ao Sol, uma super-Terra rochosa, um gigante gasoso semelhante a Júpiter e uma anã marrom, objeto cuja massa é maior que a de um planeta gigante, mas insuficiente para iniciar a fusão nuclear característica das estrelas.
O destaque da pesquisa é justamente a anã marrom, denominada TOI-201 c. Ela completa uma volta ao redor da estrela a cada 2.881 dias, pouco menos de oito anos terrestres, tornando-se o objeto detectado pelo método de trânsito com o maior período orbital já medido cuja massa foi confirmada.
Os cientistas determinaram suas características combinando um único trânsito registrado pelo TESS com medições espectroscópicas e de velocidade radial realizadas pelos instrumentos FEROS e PLATO Spec, ambos operando no Observatório La Silla.
As análises mostraram que TOI-201 c segue uma órbita altamente excêntrica, muito diferente das trajetórias quase circulares observadas na maioria dos planetas do Sistema Solar. Essa característica faz com que sua influência gravitacional varie intensamente ao longo da órbita, tornando instáveis as regiões mais distantes do disco onde normalmente se formariam gigantes gasosos.
Pelos modelos atuais, a presença de um objeto tão massivo e com uma órbita tão alongada deveria dificultar ou até impedir a formação de outros planetas próximos. No entanto, foi exatamente o contrário que aconteceu.
A equipe descobriu que os outros dois planetas do sistema se formaram em uma estreita região interna ao disco primordial, permanecendo perfeitamente alinhados com o plano orbital da anã marrom. Em vez de destruir o processo de formação planetária, TOI-201 c parece ter delimitado a área onde os demais planetas conseguiram nascer.
Os dois companheiros apresentam características bastante diferentes. TOI-201 d é uma super-Terra rochosa que completa uma órbita em apenas 5,8 dias, enquanto TOI-201 b é um Júpiter quente que leva cerca de 53 dias para dar uma volta completa ao redor da estrela.
Os pesquisadores também identificaram sinais de uma forte interação gravitacional entre o gigante gasoso e a anã marrom. Quando TOI-201 b se aproxima mais da estrela, seu tempo de trânsito sofre pequenas variações, evidência de que a gravidade exercida por TOI-201 c altera continuamente sua órbita.
Além de sua configuração incomum, o sistema representa um marco observacional. Segundo os pesquisadores, TOI-201 c é o primeiro objeto de longo período cuja massa foi confirmada por medições precisas de velocidade radial após ter sido descoberto pelo método de trânsito.
O sistema também deverá se tornar ainda mais importante nos próximos anos. Quando forem divulgados os dados da quarta liberação do satélite Gaia, será possível adicionar uma quarta técnica de observação ao estudo do objeto: a astrometria espacial. Com isso, os cientistas esperam reconstruir em três dimensões a órbita completa da anã marrom e compreender com ainda mais precisão a dinâmica do sistema.
Para os autores, o TOI-201 demonstra que a formação planetária pode ocorrer em cenários muito mais complexos do que os modelos atuais preveem. A descoberta amplia o conhecimento sobre a diversidade dos sistemas planetários da Via Láctea e mostra que objetos extremamente massivos podem, em determinadas circunstâncias, moldar o nascimento dos planetas em vez de impedir sua formação.