
Quando os astrônomos descobriram, em 2020, um planeta gigante orbitando uma anã branca, a descoberta parecia desafiar tudo o que se sabia sobre a evolução dos sistemas planetários. Afinal, estrelas semelhantes ao Sol se expandem enormemente antes de morrer, tornando praticamente impossível a sobrevivência de planetas em órbitas próximas.
Agora, novas observações do Telescópio Espacial James Webb (JWST) permitiram reconstruir a história desse sistema incomum e sugerem uma explicação surpreendente: o planeta nunca esteve próximo da estrela durante sua fase mais destrutiva.
O estudo, publicado na revista Nature, analisou pela primeira vez a atmosfera do exoplaneta WD1856b. A partir das medições de temperatura, massa e composição atmosférica, uma equipe internacional de pesquisadores conseguiu reconstituir sua evolução ao longo de bilhões de anos.
Segundo os cientistas, o planeta permaneceu em uma órbita distante enquanto sua estrela atravessava a fase de gigante vermelha. Somente bilhões de anos após a estrela se transformar em uma anã branca é que sua órbita foi alterada, levando-o lentamente para a posição extremamente próxima em que é observado atualmente.
“Nossas descobertas têm implicações para o destino a longo prazo do nosso Sistema Solar”, afirma Christopher O’Connor, da Universidade Northwestern.
“Daqui a aproximadamente cinco bilhões de anos, nosso Sol morrerá, e ainda não sabemos exatamente o que acontecerá com os planetas nesse estágio. O fato de alguns planetas poderem sobreviver à morte de sua estrela amplia significativamente as possibilidades sobre onde e quando mundos habitáveis poderão existir no Universo.”
Localizado a cerca de 80 anos-luz da Terra, WD1856b possui entre quatro e onze vezes a massa de Júpiter. O aspecto mais curioso do sistema é que o planeta orbita uma pequena anã branca (um remanescente estelar aproximadamente do tamanho da Terra) completando uma volta a cada apenas 1,4 dia.
“O raio do planeta é cerca de oito vezes maior que o da anã branca, e ele orbita a uma distância extremamente pequena”, explica O’Connor. “É um dos sistemas planetários mais incomuns já descobertos.”
Quando estrelas semelhantes ao Sol esgotam seu combustível nuclear, elas entram na fase de gigante vermelha e podem aumentar seu tamanho para mais de cem vezes o raio original. Durante esse processo, planetas próximos costumam ser engolidos.
No caso do Sistema Solar, os modelos indicam que Mercúrio e Vênus certamente serão destruídos. A Terra também poderá ser engolida ou, no mínimo, sofrer alterações drásticas que a tornarão inabitável.
Por isso, a existência de WD1856b sempre levantou duas possibilidades. A primeira era que o planeta tivesse sobrevivido ao interior da gigante vermelha, algo considerado extremamente improvável. A segunda hipótese sugeria que ele permanecera distante durante toda essa fase e apenas posteriormente migrou para perto da anã branca.
As observações do James Webb favoreceram claramente essa segunda explicação.
O telescópio mediu que a atmosfera do planeta possui uma temperatura de aproximadamente 400 kelvin, cerca de 127 °C, significativamente mais quente do que seria esperado apenas pela fraca luminosidade da anã branca.
Utilizando modelos de resfriamento de gigantes gasosos, os pesquisadores concluíram que esse aquecimento ocorreu durante uma lenta migração orbital iniciada entre 3 e 5,5 bilhões de anos após a morte da estrela.
À medida que se aproximava da anã branca, intensas interações gravitacionais converteram energia orbital em calor, aquecendo o planeta antes de ele começar novamente a esfriar.
Segundo os pesquisadores, essa migração provavelmente foi causada pela influência gravitacional de outras estrelas do sistema.
A anã branca faz parte de um sistema estelar triplo, e as duas estrelas companheiras podem ter perturbado lentamente a órbita do planeta ao longo de bilhões de anos, empurrando-o para uma trajetória cada vez mais próxima da estrela morta.
Além de reconstruir sua história orbital, o James Webb também conseguiu caracterizar pela primeira vez a atmosfera de um planeta orbitando uma anã branca.
As observações identificaram metano e evidências da presença de nuvens, inaugurando um novo campo de pesquisa sobre planetas que sobrevivem à morte de suas estrelas.
Os cientistas acreditam que esse sistema oferece uma rara oportunidade de observar um possível futuro para os planetas gigantes do nosso próprio Sistema Solar.
“Estamos acostumados a usar os telescópios para olhar o passado do Universo”, afirmou Ryan MacDonald, líder do estudo. “Mas, neste caso, estamos observando algo que pode representar o futuro distante do nosso Sistema Solar.”
Os pesquisadores destacam que a descoberta mostra que a evolução dos sistemas planetários pode continuar por bilhões de anos mesmo após a morte de uma estrela.
Em vez de representar o fim da história desses mundos, a transformação de uma estrela em anã branca pode marcar o início de uma nova fase dinâmica, em que planetas sobreviventes continuam migrando, aquecendo e evoluindo ao redor do remanescente estelar.
As futuras observações do James Webb deverão revelar quantos outros sistemas semelhantes existem na Via Láctea e até que ponto esse processo pode ser comum na evolução dos sistemas planetários.
Sobre a imagem: O exoplaneta WD 1856 b, mostrado nesta ilustração artística, é um gigante gasoso que orbita sua estrela a uma distância 50 vezes menor do que a distância entre a Terra e o Sol. Observações feitas pelo Telescópio Espacial James Webb da NASA determinaram a temperatura do planeta e detectaram moléculas em sua atmosfera.
Créditos da Imagem: NASA, ESA, CSA, Ralf Crawford (STScI).
Link do Estudo: https://www.nature.com/articles/s41586-026-10514-7