Uma poderosa tempestade solar que atingiu a Terra em maio de 2024 também provocou efeitos impressionantes em Marte. Dados coletados por duas espaçonaves da Agência Espacial Europeia revelam que o evento inundou a atmosfera superior marciana com partículas energéticas e chegou a causar falhas temporárias nos sistemas das sondas.

As observações foram feitas pelas missões Mars Express e ExoMars Trace Gas Orbiter, que orbitam o planeta há anos monitorando sua atmosfera e superfície.

A tempestade solar ocorreu em 11 de maio de 2024 e foi a mais intensa registrada na Terra em mais de duas décadas. O fenômeno gerou auroras visíveis em latitudes incomuns, chegando a ser observadas em regiões próximas ao México.

No entanto, enquanto a Terra possui um escudo natural contra esse tipo de evento, Marte não conta com a mesma proteção.

Segundo os pesquisadores da ESA, a tempestade solar atingiu Marte com grande intensidade. Em apenas 64 horas, as espaçonaves registraram uma dose de radiação equivalente ao que normalmente seria acumulado em cerca de 200 dias.

A atmosfera superior do planeta foi rapidamente inundada por elétrons liberados durante o impacto das partículas solares.

As medições mostram que o número de elétrons aumentou de forma significativa em diferentes altitudes. A cerca de 110 quilômetros da superfície, houve um aumento de aproximadamente 45%. Já em uma camada localizada a 130 quilômetros de altitude, a elevação chegou a impressionantes 278%.

Esse é o maior nível de eletrificação atmosférica já registrado em Marte.

O evento também demonstrou os riscos que o clima espacial representa para equipamentos em órbita.

Durante a tempestade, tanto a Mars Express quanto a ExoMars Trace Gas Orbiter registraram erros temporários em seus computadores de bordo. Esse tipo de falha pode ocorrer quando partículas altamente energéticas atingem sistemas eletrônicos sensíveis.

Felizmente, as duas sondas foram projetadas para lidar com esse tipo de situação. Seus sistemas detectaram os erros e realizaram correções automáticas, permitindo que as missões continuassem operando normalmente.

Para estudar o fenômeno, os cientistas utilizaram uma técnica conhecida como ocultação de rádio.

Durante o experimento, a Mars Express transmitiu um sinal de rádio para a Trace Gas Orbiter enquanto esta desaparecia por trás do horizonte de Marte. Ao atravessar as camadas da atmosfera marciana, o sinal sofreu alterações que permitiram aos pesquisadores analisar sua estrutura e densidade.

Esse método já era utilizado há décadas em observações entre espaçonaves e a Terra. Nos últimos anos, porém, ele passou a ser aplicado diretamente entre sondas que orbitam outros planetas.

No caso da tempestade solar de 2024, os cientistas conseguiram iniciar as observações apenas dez minutos após uma forte erupção solar atingir Marte, o que forneceu dados extremamente valiosos.

A comparação entre os dois planetas ajuda a explicar por que Marte foi tão afetado.

A Terra possui uma magnetosfera poderosa que desvia grande parte das partículas solares. Esse escudo magnético protege a atmosfera e canaliza parte das partículas para os polos, onde elas produzem as auroras.

Marte, por outro lado, perdeu seu campo magnético global há bilhões de anos. Sem essa proteção, partículas carregadas do Sol atingem diretamente sua atmosfera.

Ao longo de milhões de anos, esse bombardeio constante pode ter contribuído para a perda gradual da atmosfera marciana e da água que existia em sua superfície.

Os cientistas destacam que entender o clima espacial em Marte é essencial para futuras missões robóticas e tripuladas.

Tempestades solares podem interferir em sistemas de comunicação, afetar instrumentos científicos e até dificultar observações feitas por radar.

Se a atmosfera superior estiver cheia de elétrons, sinais de rádio podem ser distorcidos ou bloqueados, o que pode impactar operações que investigam a superfície do planeta.

Por isso, estudar eventos extremos como a tempestade de 2024 ajuda pesquisadores a planejar melhor a exploração futura do Planeta Vermelho.


Sobre a Imagem: Representação artística de uma tempestade solar arrancando partículas carregadas da alta atmosfera do Planeta Vermelho. Crédito da imagem: NASA/GSFC

Link do Estudo: https://www.nature.com/articles/s41467-026-69468-z


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